domingo, 30 de abril de 2017

Para quem anda quase indo, ou precisando de poemas que afaguem


Minha cara amiga me perdoe por favor,

Por escrever o que se passa,
Mengão jogando um baita futebol
Cardoso do samba anda melhor que o rock'n roll
Ontem choveu e hoje já tem sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Black blocs pra engolir a transação
E a gente encontrando um vampiro no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse Pezão.

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E hoje, dia do trabalhador, fico aqui indignada com todo esse retrocesso.
Em pensar que fomos às ruas lutar por direitos já garantidos e esses FDP engravatados querendo tirar dos que não tem.
Ando vendo tanta revolta e tanta impunidade que acho melhor você ficar por aí e olhar para esses cantos lindos de suas fotos, do que se chocar com uma tropa que chega sem pedir licença e nos faz chorar pelo gás derramado nos aposentados, servidores públicos com suas crianças encurralados em plena Cinelândia. Em pensar que foram esmagados na porta do Cine Odeon, como uma cena de horror nos filmes das Guerras Mundiais.
Me senti impotente.
Sim minha cara amiga, voltamos a dita: DURA
Não está mole pra respirar. Quem dirá pensar naquele sonho que dizíamos sonhar juntas...
Mas como bem diz a letra de Chico, vamos também amando, 
pra ver se tudo isso afaga ou se afoga em lindos poemas do último filme de Jim Jarmusch. Se tiver um tempo, gaste nessa poesia tirada de um cotidiano banal.
Aproveito pra te contar da minha vontade de ir à Africa e ver de perto o que tem os feito sair de lá. Do documentário sobre educação, dos índios (veja também Martírio) e da arte pela Europa.
Tenho tanto pra te contar.
Mas prefiro apenas lhe dizer para ler bons livros, tomar bons vinhos baratos e te deixar com esta fotografia em forma de poema, tirada pela amiga Ana Carolina Fernandes, bem no epicentro dos batimentos cardíacos elevados.






Vamos usar a cabeça para pensar, estimular a imaginação, alimentar as defesas contra o autoritarismo e a opressão. Palavras de Ana Maria Machado.

O Gabriel aproveita pra também mandar lembranças,

A todo pessoal,
Adeus


Por Betânia Furtado

quarta-feira, 15 de março de 2017

3.8, quem diria.

Acordei num sobressalto. De repente, a vida deu mais uma volta em torno do sol e, dessa vez, a primeira em todos os anos que me lembro, eu tinha passado a meia-noite dormindo. Literalmente, I didn't see this coming.

O mais difícil de fazer aniversário longe de casa é não receber uma enxurrada de mensagens a meia-noite pra te lembrar a Primavera que chegou. Não tenho como não me sentir meio sozinha, mas nem seria justo cobrar; estou 5 horas à frente de casa e meus amigos estão todos espalhados por aí. A maturidade chega e a gente aprende que, pra quem o aniversário chegar, chegou. Estar junto não significa estar perto, ainda mais em tempos sombrios como os que vivemos hoje.

É estranho fazer 38. Nada contra a idade em si: Quanto mais o tempo passa, mais incrível eu vou me achando, desculpa aí te contar isso assim. Deus me livre da vida que eu vivia 10 anos atrás; Saturno batendo com tudo à minha porta, eu querendo conquistar o mundo sem dinheiro, solteira, trabalhando em algo que não me fazia bem. Eu era um poço de insegurança há 10 anos atrás. Como a maturidade me caiu como uma luva :)

Mas a verdade é que o tempo passa e eu cada vez menos me identifico com esses números que colocam aqui na minha frente. Como eu falava outro dia com uma grande amiga, o problema não é a idade, o problema é o Gabarito. Vivemos em busca de um ideal de Felicidade que sabe Deus de onde foi que a gente tirou, querendo tirar 10 em tudo sem prestar atenção na aula. A gente perde tanto tempo querendo ser a funcionária do ano em tudo sem perceber que as vezes aquele emprego nem serve mais pra você.

Se você não consegue acertar na prova, talvez seja a hora de mudar o Gabarito. Mudar as perguntas. Descobrir pra onde seu olho brilha. Parar de esperar o dia em que vai chegar a próxima viagem, aquele telefonema, passar o carnaval, ter logo o segundo filho ou um pouco mais de dinheiro na conta. Aos 38, se tem um conselho que eu posso dar pra você é: Vai do jeito que dá.


Por isso, ao acordar, em vez de perder meu tempo com as fotos alheias e invejar uma vida perfeita que eu já nem sei se serviria pra mim, resolvi esperar só mais 5 minutinhos pra não apenas agradecer, mas também reconhecer que a vida está tão boa quanto ela poderia estar. Ao contrário do que dizem por aí, o que o Universo te entrega, acredite, nada mais é do que tudo aquilo que você pede pra ele.

E que sigamos sabendo que temos muito a melhorar, mas certos de que a solução pode ser colocar os dois pezinhos na direção daquela mudança que a gente vive adiando por não termos as condições ideais, respirar fundo e se partir pra ação. Parar de colocar todas as desculpas do mundo na falta de tempo – de dinheiro, de companhia, de amor – e ir em busca da vida que a gente sempre sonhou. Menos cobrança, mais ação: Taí a minha receita de Felicidade hoje pra você.



“Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Galeano me desejando que, no próximo ano, eu consiga dar mais e mais voltas em torno de mim mesma.




quarta-feira, 1 de março de 2017

Tão longe, tão perto

Deixa eu te contar uma coisa, agora que passou todo o Alalaô.

Quando resolvemos esticar essa temporada fora do Brasil, a única coisa que pedimos ao Universo foi que nada de ruim acontecesse às pessoas que a gente ama enquanto a gente estivesse longe. Por mais difícil que seja ficar longe do pão de queijo, dos amigos e dos bloquinhos no Carnaval, se tem uma coisa que realmente atormenta o coração de quem mora longe de casa é a idéia de não estar por perto no caso de algo acontecer a alguém muito importante pra nós.

Eu tinha acabado de sair do Brasil quando aconteceu pela primeira vez. Perdi uma das minhas melhores amigas, minha Fada-Madrinha, a rainha da minha bateria e, com ela, o meu chão. Foi uma rasteira tão forte da vida que eu pensei que nunca mais ia conseguir voltar a sorrir.

Aos poucos, a gente começa a ensaiar um sorriso tímido ao lembrar que a amiga seria a primeira pessoa a querer que a gente fosse feliz de novo. Como aqueles primeiros raios de sol da Primavera, pouco a pouco vem vindo um sorriso tímido, acompanhado de uma saudade longa, melancólica, presente. Ainda mais nessa época de carnaval.

Tínhamos passado um ano em San Francisco quando Michel Temer as circunstâncias nos levaram a decidir passar 2 anos em Paris. Trabalhar na Europa, aprender Francês e aproveitar Paris com calma pareciam muito mais interessantes do que aturar a dupla Crivella-Temer. A LÓGICA nos trouxe pra cá. Mas... E o coração? 

A verdade é que gente nunca se acostuma a ficar longe. Por mais que a gente construa uma nova vida aqui fora, faça novos amigos e curta a descoberta dos novos cafés, até segunda ordem somos cariocas morando longe do Brasil por um tempo pré-determinado. Amava San Francisco e não tem como a gente não amar Paris, mas é o Rio que segue tatuado no braço; com suas dores, suas mazelas e sua beleza de arrancar o fôlego, como um beijo roubado no bloco. Ah, se você fosse sincera, Aurora.

A única coisa que conforta um pouco à distância é uma certa sensação de que está todo mundo bem no Brasil e a gente veio aqui porque era aqui que a gente tinha que estar. Cada um com suas escolhas, cada um no seu caminho, o nosso veio parar aqui. Tudo lindo, até que o medo lá do começo arrebenta a sua porta. 

E estar longe de casa quando alguém precisa de você é de fuder o cu do palhaço, cês vão me desculpando aí pela expressão. Principalmente quando a única coisa que você não pode (não pode?!) fazer é entrar num avião e voltar pra casa. Ainda mais quando a pessoa é parte fundamental de tudo aquilo que a gente é. Ainda mais no meio do carnaval.

(Aqui vale um comentário de que está "tudo bem" com a pessoa e ela não quer ser exposta. Foi a maior rasteira que já tomou na vida, mas ela vai usar o tropeço como trampolim e vai sair dessa voando como nunca se viu. Agradeçemos aí antecipadamente a preocupação).

Na sexta-feira, enquanto todo mundo estava no bloco, estava eu com o coração na boca a ponto de precisar ir chorar no banheiro com uma amiga (obrigada, viu?!). Foi aí que ela me contou que tinha sido criada só pela mãe e que se algo acontecesse ela não ia se perdoar jamais por ter deixado a família no Brasil e vindo parar aqui. Sozinhas, naquele banheiro frio do bar lotado em Paris, nós nos abraçamos e choramos juntas, cada uma com saudade de sua própria casa. 

E nunca mais se viu banheiro mais brasileiro na fria madrugada de Paris. 

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Como todo Carnaval tem seu fim, Março chegou e com ele o novo trabalho que é o suposto motivo pra eu ter vindo pra cá.

Acordei cedo e, meio sem saber o que fazer, resolvi começar o mês sentando pra meditar. 

Coloquei o fone de ouvido e dei play na única música que eu poderia ouvir numa hora dessas.

 



Eu 
Não vou mudar, não 
Eu vou ficar são 
Mesmo se for só 
Não vou ceder 
Deus 
Vai dar aval, sim
O mal vai ter fim
E no final, assim calado eu sei que vou ser coroado Rei de mim.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Qual Paris?


2 semanas em Paris.

Ontem foi Dia dos Namorados na Cidade Mais Romântica do Mundo. Mas... Onde estará essa cidade?

Eu sempre sonhei que esse dia ia chegar. O cenário não era exatamente esse, mas o Quase Indo foi criado numa viagem ao Velho Mundo. Eu vinha em busca de um passaporte italiano e do meu direito de sonhar. De lá pra cá, tudo foi construção. Namorei, terminei, ri, chorei, casei, passei um ano em San Francisco e finalmente cheguei a Paris.

Uma cidade fria, confusa, opressiva... E linda.
[Como pode ser tão linda no meio de todo esse caos, ó Paris?]

Parei pra contar e essa é 5a vez que eu ponho os pés aqui - dessa vez, pra ficar um pouco mais. Vim atrás da daquela cidade que eu sonhei lá atrás: A Paris da Belle Époque, da Amelie, dos cadeados pela Ponte.



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Quando tudo é expectativa, tudo gera frustração. Viemos atrás da Paris da Amélie e caímos na porta de entrada (e saída?) de um mundo que parece não estar indo nada bem.

Seria possível reduzir essa cidade a uma boa baguette, um bom queijo e uma boa garrafa de vinho? Será que ainda dá tempo de voltar à Paris dos anos 20, existencialista, apaixonada e eterna? Seria Paris a cidade de todos aqueles filmes de amor que a gente vive assistindo na infância, construindo um ideal de Amor Romântico que não vamos atingir jamais? Haveria espaço para os poetas de calcada que assobiam pra moça que suspira bonita e ama baixinho, feliz pra sempre enquanto vira o ultimo gole desapressado do seu café? Haverá tempo ainda para que essa moça seja eu?

Ou terá Paris sido intoxicada pela fumaça do cigarro que ela insiste em fumar, pela presença ostensiva da sua Polícia e pelo suor sagrado dos imigrantes que vieram aqui buscar todos aqueles anos que lhes foram roubados pela França?

Qual é a sua Paris?

Pra mim, quinze dias foram tempo suficiente pra mudar pra sempre esse meu olhar; sobre a cidade, sobre o mundo que vivemos hoje e, principalmente, sobre o que foi que eu vim fazer aqui.

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Os dias passam frios e atravessamos todos eles resolvendo os desafios que aparecem, um a um. A gente tem todo um ideal romântico de largar tudo e ir morar na Europa, fazer queijos e beber vinho. E aí?

O que fazer quando você chega exatamente no lugar onde você sempre sonhou?

Você passa a vida toda em busca de um sonho e quando chega nele a vida é pagar boleto e correr atrás do Metrô. Bom, pelo menos, tenho agora 14 linhas de Metrô só pra mim.

E, por mais difícil que o inverno seja, meu coração de Amélie sabe que vai tudo dar certo lá na frente. Enquanto esse dia não chega, nós sempre teremos Paris.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Esvaziando a mala


Talvez o maior erro que você possa cometer ao se mudar pra um lugar completamente diferente daquele onde você cresceu seja a quantidade enorme de expectativas que vamos acumulando com o passar dos anos.


Manter a bagagem cada vez mais leve, como me disse uma amiga minha. Como eu pude me esquecer disso?




Toda expectativa gera frustração, acho que li isso naquele livro que eu esqueci no canto do quarto onde eu já nem moro mais. E a verdade é que os primeiros dias em um país cuja língua você não fala bem podem ser bastante desafiadores. A burocracia que te enlouquece, o frio que te corta a alma... E o relógio que não para de girar. Pequenas demandas vão se acumulando pelas paredes e quando você se dá conta a vida virou uma avalanche de problemas que você não consegue resolver. É o banco que não te deixa abrir conta sem comprovante de residência. É apartamento que não quer ser alugado se você não tiver conta no banco. Você não consegue respirar e de repente começa a sonhar com Férias de tudo isso.

Peraí. 
Férias? Das Férias? 
Pára tudo. É hora de respirar. 

Hora de dar uma volta pelas ruas da (segunda) cidade mais bonita do mundo e lembrar o que foi que eu vim fazer aqui. De voltar os olhos pra beleza arquitetônica, de sentar leve pra tomar um café. De curtir o falar baixo, de flanar por Paris sem pressa e degustar a vida como quem come o amor aos bocados. Hora de abrir um bom vinho, comer um bom queijo e rir da vida enquanto observa o ritmo lento do casal de velhinhos que atravessa a rua. 


É hora de agradecer, respirar e seguir. 




Venceremos. Vincerò.





(a pele fica uma merda, mas o cabelo, pra variar, fica espetacular...)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Portas em Automático


Atenção tripulação: Portas em automático.


O coração vem à boca, as mãos suam, o olho brilha. 37 anos depois, sigo em busca de viver o sonho de ser Livre. 

Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda. Quem me falou isso foi a Cecília, mas a verdade é que essas palavras sempre pulsaram dentro de mim. Desde menina vivo atrás do vôo do pássaro, da borboleta no estômago, de finalmente entender o que foi que eu vim fazer aqui. 

Aqui.
A partir de amanhã, e ainda depois, Aqui vai ser Paris.




Eu sempre alimentei um sonho secreto de morar em Paris. Pra mim, é a segunda cidade mais bonita do mundo - e me perdoem aqui esse dolorido coração carioca na hora de partir. Vou lá em busca da Paris da Amélie, da Paris dos cafés, dos queijos, dos vinhos e das canções de amor. Da Paris que passeia à nossa volta enquanto comemos um crepe de Nutella. 

Ontem, com tanta gente querida que veio se despedir de mim, o peito apertou tanto que eu acabei precisando chorar. O Kiko tocava uma música bonita e tinha tanta gente me dando a mão que eu comecei a sentir tanto amor, mas tanto amor, que uma hora aquele amor todo parou de caber dentro de mim. Chorei de alegria, chorei por me sentir amada, chorei de orgulho ao me dar conta de que acabei criando a vida que eu sonhei pra mim. Chorei ao perceber que tudo que eu vivi, da bicicleta na Tijuca aos cafés de San Francisco, do Samba em Laranjeiras ao grafite de Nova York, do Carnaval em Cabo Frio ao amigo que eu fiz na Copa, da Itália ao Boitolo, tudo, tudo foi uma grande preparação pra eu estar sentindo esse amor que eu sinto hoje. Por isso eu vou. Pra poder agradecer.



Termino contando uma coisa que uma amiga muito querida que me disse hoje de manhã: "Talvez, nessa nossa empreitada pelo mundo, a gente não esteja indo, mas sim constantemente voltando pra casa". 

Au Revoir, Mes Amis. A gente se vê em Paris. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Preenchendo as lacunas


Ou vai ver tudo começa e termina num cadastro.
Comigo foi assim.
Numa ficha de hotel. 

Profissão? 

Putz. Não sei.
O que preencher na lacuna da profissão quando nenhum rótulo te basta? Publicitária? Produtora? Resolvedora de problemas? 

Foi um dia desses que eu vim pro mundo atrás dessa busca.
Porque foi desde que eu nasci que tô aqui tentando descobrir o que foi que eu vim aqui pra fazer.
Fiz a minha mala com um pouquinho de coragem, um computador, a minha caneta e uma pitada de brilho no olho. 


Foi por culpa de uma pergunta no hotel - o que foi afinal que você nasceu pra fazer? - que eu entendi a entrelinha. Eu não estava fazendo uma viagem, eu estava fazendo uma BUSCA. Destino: Sentido da Vida.



E, tomando um café ensolarado nessa manhã da Califórnia, eu me dou conta de que estamos sempre tentando preencher as lacunas da nossa vida. Às vezes, o que não sabemos é preencher o endereço: Eu tenho tanto amigo nômade dando a volta ao mundo que já não sabe mais onde fica sua casa. E quando o rótulo é o Estado Civil? Taí um rótulo dolorido de mudar.

E a gente vai seguir mudando de casa, de trabalho e de marido sem compreender que de nada adianta mudar a janela enquanto a gente não muda o olhar.




Somos 7 bilhões de lacunas. 


domingo, 23 de outubro de 2016

Aonde a gente morava era um lugar imensamente sem nomeação - Manoel de Barros

Sem mais, lembrei do Kiko, lembrei da Lu. Do meu pai,  dos meus irmãos. Pensei no Gabi e na minha infância.
Pensei na minha mãe no interior e todas as crianças que brincam de pés descalços.

Me embalei nesta quase música, pensando no mato, no mundo, na luz entrando na mata perto daquela cachoeira gelada. Atirei pedra na água pra ver se quicava. Nadei e gritei de frio no primeiro mergulho. Me esquentei com o sol, deitada na pedra.

Lembrei de Manoel de Barros que diz que desde o começo do mundo água e chão se amam e se entram amorosamente e se fecundam.

Invento pra me conhecer...

Na mata correndo ao sol raiar
pelado pintado num só brincar
Suspiro do vento a embalar
na folha deleita para sonhar

menino índio descobre o cantar
Do pássaro azul no céu a voar
cantar e voar
voar e (en)cantar

a rede de pesca para pescar
O arco e flecha para caçar
pés de moleque a saltitar
no brejo do rio a se banhar

menino do mato aprende a nadar
com peixe que pula do rio para o mar

nadar, para amar.
cantar
para o mar

no verde cerrado a luz a entrar
Um feixe sereno para esquentar
o encontro das águas vem iluminar

E o sol nos acolhe, pra nos saudar
Aquece o menino
Vem desabrochar

num voo a voar,
um peixe a nadar

Celeste arrebol a encantar
com sua beleza nos presentear
e o pássaro azul vem assoviar

mensageiro do ar
Vem menino amar

a vida e o mar...
a mata e o luar...

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

É PRIMAVERA!

Essa semana serve para refletir.

Semana em que ouvi anunciado o fim da Filosofia nas Universidades e a volta às aulas de Moral e Cívica, semana em que Temer foi a ONU e países latino americanos saíram em protesto ao ouvir seu nome. Mesma em que meu estado de origem comemora o 20 de setembro e as raízes gaudérias afloram.


Dias de pensar, de maneira ampla, nos imigrantes, nas eleições da Alemanha, até então aberta aos países que pedem ajuda. Nos vizinhos que chegam aos barrancos e vendem esfirras e óculos nas esquinas. No meu mundo particular: duas amigas que partem para se lançar ao mar, ao desconhecido mundo dos encontros consigo e de um horizonte de possibilidades. Momento  em que se alcança ao caminhar rumo a utopia, diria Galeano em suas sábias palavras.


Mas hoje, dia da primavera, há de florescer uma rosa vermelha em meu jardim. Dia em que as flores brotam e se fazem as mais exibidas da natureza.


Hoje, minha avó floresce aos seus oitenta e vários anos de vida. Uma vida que eu diria, bem vivida. De plantar raízes, desbravar cidades, trabalhar menina, de virar mulher política num Brasil de calças.


Escrevo aqui para te dar os parabéns, pela história de anos de luta e amor. Por ter chegado aonde estás hoje. Mulher forte, de unhas coloridas, saia amarela e colares que transbordam. Penso no pouco tempo de vida do Brasil, com seus mais de 500 anos de civilização (?) e te vejo na história, tentando construir este país, com possibilidades mais igualitárias. Utópico? Que bom que você tentou e fez sua caminhada.


Penso nas crianças mudas e telepáticas, nas domésticas, nas minorias, no analfabetismo, penso nos imigrantes. Somos todos seres HUMANOS iguais e com os mesmos direitos de vida.


Penso na nossa história, parida na dizimação de índios, na vinda de colonos igualmente imigrantes que chegaram aqui para desbravar. Porque impomos barreiras e tratamos nossos irmãos como quase lixos jogados embaixo da ponte com tanto a oferecer e tantas histórias pra contar.


Pouco falamos ou estudamos sobre a verdade que nos constitui. Um povo que lê quase nada (40% não lê livros e 30% nunca comprou um) e com 13 milhões de analfabetos. Será isso reflexo de nossa educação, ou uma questão política? Será que o Golpe de Estado que vivemos este ano é reflexo do nosso passado? Não existe governo corrupto em uma nação ética, disse o historiador brasileiro Leandro Karnal. Passamos por pouco tempo de história democrática do Brasil e ainda engatinhamos com as leis falhas da constituição.


Que orgulho saber vó, da sua coragem e que, com sua luta e fé (nunca esqueçamos dela) cresceu e criou a família que queria prover.


No livro Raízes do Brasil (1936) Sergio Buarque de Holanda descreve o povo brasileiro como cordial, que age com o coração e com o sentimento. Um livro que busca mostrar a identidade brasileira com conceitos de patrimonialismo e burocracias dos  novos tempos. Acho que aceitamos fácil ou simplesmente nos deixamos levar para conseguir suportar. Uma vida num país tão belo e proporcionalmente injusto.


Queria eu tentar entender um pouco mais sobre esta origem, sobre a tua, sobre a história que nos constrói. Estamos no momento de desabrochar, ainda num crepúsculo nascer do sol, tempos de florescer e nos tornar mais belos. Mas é difícil nascer, diria a borboleta em seu jardim. Tenho esperança, e disso me admiro. Por ver uma luz e sentir que o desgosto é grande, mas só por isso nos movimentamos e algo bom pode acontecer.


Talvez o tempo passe e só daqui há 20 anos a gente entenda este momento histórico que vivemos. Enquanto a sabedoria, mesmo sem aulas de filosofia, se apresenta no cotidiano e nos mostra o que realmente importa na vida. Um viva para os encontros, para os que lutam, para o amor e para minha vó que nasce hoje em mais um ciclo em torno do sol.


Porque é primavera e as rosas hão de brotar.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Voltar quase sempre é partir para um outro lugar


A mala fechada no canto da sala. Respira, dá o último gole no vinho que sobrou de ontem. Sorri lembrando cada coisa que aconteceu. Meu Deus, esses meses voaram. Respira fundo e sente no ar o inconfundível cheiro de jasmim das Laranjeiras que, como sempre, satisfeita sorri.

Pensando aqui, foi curioso que eu tenha passado esse tempo reaprendendo a namorar esse bairro onde tão feliz eu fui. Eu, que já não moro mais aqui, pude viver de novo a leveza daquela Luana lá de trás: A Luana do chorinho, do pedaço de manga oferecido na feira, do encontro com o amigo dono do cachorro no café da esquina.

A Luana que precisou se divorciar de uma cidade pra perceber o quanto ela precisava viver com o Rio um namorico temporário, de portão de embarque, aquele amor de verão em que a gente um dá pro outro tudo o que temos de melhor. Como naquela que eu escrevia no canto da agenda da escola que dizia que, quando a gente ama mesmo, a gente precisa deixar a pessoa ir embora.

Cidade Maravilhosa, meu bem: Como nos fez bem a coragem de abrir a relação.

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A vitrola da minha cabeça toca Samba do Amor, na voz da Teresa. E nessa hora eu lembro da frase que minha amiga insiste em dizer: "Um Homem nunca entra duas vezes num mesmo Rio".

Que bonito isso da gente poder voltar pra Casa, essa palavra cuja busca permeou cada minuto desse doismiledezesseis. Eu vou pra poder voltar, vou com um gostinho de felicidade tão genuína por todo amor que eu vivi aqui. Fui acolhida pelos meus, pelas minhas, por corações que pulsam junto ao meu em milhas ou em quilômetros.

Obrigada pelos abraços generosos e por todo o [muito] amor envolvido nesses mais de sessenta dias que eu passei aqui.

E hoje eu me despeço sabendo que vou leve, com o gosto na boca de missão cumprida. Foi difícil vir. Foi facílimo estar. E vai ser muito bom voltar.

Até loguinho.



(ouçam)