sábado, 31 de maio de 2008

despedida

"Querida Letícia,

Ando pensando muito na pergunta da sua última carta. Lá vou eu de novo ganhar o mundo. "Mas será que essa sua inquietude não vai passar nunca?"

Acho que não. Sabe por que? Porque estou explodindo de felicidade aqui, com a passagem na mão. No fundo, acho que nós duas sempre soubemos que eu não pertencia a lugar nenhum. Que eu sempre ia querer ser mais feliz, ir mais longe, conhecer outras coisas. Será que vai ser sempre assim?

A verdade é que cada vez tenho aceito com mais calma o SIM. Acho que sou feliz assim, indo embora. Estranho, né? Ok, essa frase ficou forte demais. Mas a verdade é que tenho percebido com mais intimidade que cada pessoa é de um jeito e é isso que faz da gente tão especial. Talvez eu seja assim mesmo. Se você parar pra pensar, eu sempre quis mais, quis o mundo, quis o menino da outra cidade, quis tudo.

A verdade é que eu me sinto uma estrangeira nesse mundo. Uma estranha nesta casa, nesta familia... Sei lá. Não sei bem como explicar. Amo essa cidade, amo minha familia, meus amigos, minha casa, minha história, minha vida aqui. Mas sinto que sempre teve algo muito forte me puxando pra algum lugar que eu não sei onde é. Eu sempre soube que ia fazer algo grande, algo especial, diferente. Sempre soube que ia embora. Mas eu não sei que força é essa e acho que é aí que mora a raiz da inquietude. Não sei explicar, mas acho que sempre estive indo.

Quero ir embora porque não pertenço a lugar nenhum. E te falo isso com os olhos marejados, um nó fodido na garganta, mas talvez porque finalmente percebi a razão disso tudo. E o incrível é que isso não é uma coisa ruim. Eu quero ir embora não porque aqui não está bom. Aqui está ótimo! Minha casinha nova é linda, meu trabalho está bem OK, a grana está legal... Mas sinto que preciso fazer mais, e mais, e mais... É um sentimento positivo, empreendedor, na verdade. De querer ganhar o mundo!

Certamente algumas pessoas vão pensar pense que é só uma questão de análise. Que é só eu aprender a lidar com isso e me conformar... Mas será que isso é ser feliz? Preciso mesmo aceitar aquilo que não me faz feliz só porque a sociedade SUPÕE que é o correto? Mas será que eu não estaria aprisionando aquilo que tenho de mais bonito? Será que preciso mesmo sossegar um dia? Entrar na convenção só pros outros ficarem mais tranquilos assim? O que é patrimônio? Uma casa ou uma vida rica em experiências???

Acho que o retorno de saturno bateu. E eu te escrevo pra dizer que estou muito feliz assim. Calma, serena, madura e feliz. Isso é o que importa. Sei que vou crescer muito com isso. Que vou continuar me transformando numa pessoa cada vez mais bacana e cheia de histórias pra contar. Talvez eu nunca compre uma casa, mas ok, não sei mesmo onde quero morar.

Então é isso, basicamente. Escrevo pra te dizer que sua melhor amiga está indo embora e feliz. Fica tranquila que você sempre terá um chá quente e um colchãozinho ao lado onde quer que eu esteja.

Te amo e viva meu álbum de fotografias.
Isabella".

4 comentários:

caru andrade disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
caru andrade disse...

"eu não sou da sua rua.
eu não falo a sua língua.
minha vida é diferente da sua.

estou aqui de passagem.

esse mundo não é meu.
esse mundo não é seu."

não importa onde estão a felicidade e a calma.
sempre que chegarmos nelas, vamos um pouco mais a frente procurá-las mais redondinhas, mais quadradinhas, mais calminhas, mais agitadinhas...

porque a gente é assim.
queremos mais.
queremos do nosso jeito.

eu na minha casa e a isabella ganhando o mundo e dando piruetas...

teamo

Vanessa disse...

Excelente texto e mensagem ;-)
É ficção? Alguém se vai mesmo?
Adorei!
Vanessa

Rafael Fortes disse...

Gostei muito, Lu!

Beijo!