quarta-feira, 25 de março de 2009

30


trinta. três + zero. dez + dez + dez.
trinta.
estranho, esse número, né?

não me identifico com 30. não é que eu não me veja com trinta anos. eu tô ok com eles. foram eles que colocaram no meu ombro o peso e a pluma daquilo que eu sou. foram eles que fizeram de mim a soma de tudo o que que vivi, dia a dia. eu sou as lágrimas, eu sou a gargalhada e eu sou os tropeços. momentos. eu sou a soma de todos eles - vários são bons e poucos são ruins. muitos foram tensos, alguns deles excelentes. todos inesquecíveis.

mas eu tô ok com o 30. só acho estranho este número que é par mas na verdade é um número ímpar, quase primo. único, como 30 deve ser. porque querendo ou não a entrada de Balzac é um marco.

é que eu acho que demorei tanto pra aceitar o 29 que agora não consigo me desapegar dele. instistiram tanto pra eu aceitar saturno, e agora devo deixa-lo ir?

não, não e não.

lembro tanto de quando eu usava vestido e fita e andava sujando meus dedos de sorvetes gelatto e pensava no nome e na cara que teriam meus filhos quando eu finalmente chegasse aos 30... pra mim, que desde os 8 espero ansiosamente a chegada do século 21 ("quando eu já vou ter dezenoooove anos!")... 30 era longe demais. aos 30 eu estaria formada e seria uma daquelas mães de margarina, e usaria avental, e seria casada, e seria feliz.

agora, aos 30, eu tenho andado bem feliz. mas os meus 30 têm uma cara tão diferente daquilo que eu sonhava... acho que o meu 30 não casa.

então vou continuar no 29.
e que venha o 31.
nossa. 31 não dá.

o último poema, por hora

andei pensando na função deste blog.

ok que o blog é meu e f0da-se que ninguém lê, mas fico pensando às vezes: a quem ele serve? é só uma válvula de escape? estou ecoomizando horas de análise e prontoacabou?

resolvi então dar uma guinada e mudar o caráter por uns tempos. vamos voltar a usar este canal pra cuspir ao mundo meus palpites e falar sobre a vida alheia. chega de chororô poético, o inferno astral já passou.

não quer dizer que não teremos mais boas palavras por aqui. nem sim nem não, muito pelo contrário. só pro próprio blog entender que quem manda nesta porra sou eu.

aguardem.
enquanto aguardam, vamos ao último, lindo, lindo, lindo poema recebido ontem.

“a maior riqueza do homem é a sua incompletude.
nesse ponto sou abastado.
palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas,
que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
perdoai
mas eu preciso ser Outros.
eu penso renovar o homem usando borboletas”.

manoel de barros

curtinha

coração novo
de casa velha
casa pequena
com coração grande
casa nova
pro coração velho

sábado, 14 de março de 2009




ela queria tão pouco, na verdade. queria alguém que a amasse do jeito e pelo jeito que ela é. queria ser respeitada por isso, mas não reverenciada e nem colocada em um pedestal. queria ser amada por alguém ombro a ombro, simples, mortal. queria que isto de morte não acontecesse nunca e só servisse pra deixar mais bonita as tristes histórias de amor.

queria todo mundo sempre junto, sempre e para sempre, e para sempre rindo e que o riso fosse para sempre alegre. queria, mas queria muito, que o medo da solidão fosse para sempre embora pra terra do nunca. ela queria a verdade dita no fundo os olhos como quem pede desculpas com o fundo da alma.

ela não queria nunca mais, nunca mais, nunca mais, nunca mais, nunca mais, nunca mais ela queria sofrer por amor. mas queria conseguir entender que o amor sempre dói, e que doer faz parte, e que umas vezes é uma dorzinha boa e nas outras não. queria que tivessem cuidado com a dor dela. queria nunca mais fazer alguém se doer tanto.

queria querer, e queria no dia seguinte continuar querendo com tanta força que desse vontade de gritar do telhado mais alto do mais alto dos prédios do mundo. e queria que lá, nas palavras-estrela, tudo se completasse, se transformando numa coisa só, eu e você, nós, deus, estrela, céu, mundo. e queria continuar preenchida por aquele amor mesmo quando as palavras fossem esquecidas. ela queria que lá em cima, no silêncio do grito, tudo finalmente fizesse sentido.

queria.
era só isso.
que ela queria.

os 30 primeiros

"Ontem fiz 30 anos.

Fazer 30 anos é, entre tantas coisas, finalmente reconhecer a total desimportância que você ou o seu aniversário tem para o mundo. Dessa forma, começar uma crônica com a frase "ontem fiz 30 anos" é de uma sem-vergonhice incompatível com a idade de 30 anos. Esse é o tipo de pensamento que os seres humanos começam a ter com 30 anos.

Até os
30 anos, vivi como se fosse uma entidade incorpórea. Com a idade premiada, vem a descoberta: você mora num corpo e esse corpo não é oco. Aos 30 anos, descobre-se onde fica o fígado, o pâncreas, os rins. Não num livro de anatomia, mas através de pontadas no abdômen. Aos 30 anos, você percebe que seu coração esgarçado não é simplesmente uma metáfora, que ressacas podem durar três dias, e cogita a hipótese de parar de entupir suas veias com lixo. Esse é o tipo de preocupação que os seres humanos começam a ter com 30 anos.

Há dez anos, fazer
30 era simplesmente uma irrealidade tão distante quanto um exame de próstata. Hoje, imagino o que vou fazer da vida quando (ou se) chegar aos 50 – preciso começar agora a pagar à previdência, comer fibras, escrever minhas memórias, voltar a correr, ler "Em busca do tempo perdido" e fazer um check-up dentário. Esse é o tipo de lista que os seres humanos começam a fazer com 30 anos.

Hoje, vejo que aos 20 era um imbecil que não sabia nem dar bom dia a uma mulher, como diria Nelson Rodrigues. Aos 40, espero não chegar à mesma conclusão quando reler essa crônica. E, sobretudo, não me arrepender demais do trecho da minha biografia correspondente à década que começa hoje. Preocupar-se com a opinião que você terá sobre si mesmo no futuro é o tipo de antecipação inútil que os seres humanos começam a ter com
30 anos.

Nos últimos anos da minha já saudosa década-perdida de 20, passei metade dos meus dias fora do Rio de Janeiro. Isso me fez entender com lucidez os motivos pelos quais eu amo (e também odeio) a cidade onde nasci. Com três décadas nas costas, você já sabe qual é a janela de onde você enxerga o mundo, e esse é o tipo de visão que os seres humanos começam a ter com
30 anos.

Aos
30 anos, você sente essa compulsão estúpida por fazer contas: quantos ossos quebrados, quantas linhas publicadas, quantos endereços, quantas vezes pra sempre. E, assim, cede à tentação estéril de buscar algum sentido ao colocar as coisas em perspectiva, ilusão típica de seres humanos que completam 30 anos.

Tudo o que você não é, ainda pode ser a partir dos
30 anos - com óbvias exceções como astronauta, atleta olímpico ou concertista de piano. Ainda dá tempo de escrever a grande obra, ser uma estrela do rock, morar num veleiro e começar a fazer cinema. Esse é o tipo de pretensão delirante e desesperada onde os seres humanos podem, ainda, se refugiar aos 30 anos.

No entanto, algo acompanha os
30 anos que é mais importante do que todo o resto: a convicção cristalina de que seus bons defeitos não tem cura. De que você é um acidente esperando para acontecer desde que nasceu. De que, depois de cada desastre, a vida seguirá - até que acabe. Esse é o alívio possível, essa é a saída – essa é a iluminação do homem de 30 anos. E aí ele se aproxima, não do homem de 20 ou de 50, mas do homem de cinco, do homem relaxado, tranqüilo e bem resolvido que era quando tinha cinco anos".



[cuenca]

quinta-feira, 12 de março de 2009

âmago

"como são estranhas as noites que não dormes comigo, noites brancas, como aquelas russas noites narradas pelo Homem Doente dos subterrâneos gelados de Bem Longe, como o sol se põe mais tarde tão-somente para tingir de paixão roxa a minha miopia e o meu astigmatismo, aquele degradè borrado por melancólicos nanquins na chuva de san pablo derretendo sobre mis gafas-parabrisas, como são atípicas não pelo costume, mas pelo desproveito do calendário, a folhinha do quando, que não marca dia santo nem feriado para o desejo, como são estranhas as noites riscadas pelos relâmpagos do ciúme e como são lindas as madrugas e manhãs entorpecidas pelo amor-de-muito que ficou guardado nas dobrinhas, glândulas, suores dos corpos e das roupas vagabundamente atiradas sobre os tacos de todos os “últimos tangos”, como enfio as pernas entre os lençóis tentando achar o que quero para sempre hoje".


[chico sá]