sábado, 14 de março de 2009

os 30 primeiros

"Ontem fiz 30 anos.

Fazer 30 anos é, entre tantas coisas, finalmente reconhecer a total desimportância que você ou o seu aniversário tem para o mundo. Dessa forma, começar uma crônica com a frase "ontem fiz 30 anos" é de uma sem-vergonhice incompatível com a idade de 30 anos. Esse é o tipo de pensamento que os seres humanos começam a ter com 30 anos.

Até os
30 anos, vivi como se fosse uma entidade incorpórea. Com a idade premiada, vem a descoberta: você mora num corpo e esse corpo não é oco. Aos 30 anos, descobre-se onde fica o fígado, o pâncreas, os rins. Não num livro de anatomia, mas através de pontadas no abdômen. Aos 30 anos, você percebe que seu coração esgarçado não é simplesmente uma metáfora, que ressacas podem durar três dias, e cogita a hipótese de parar de entupir suas veias com lixo. Esse é o tipo de preocupação que os seres humanos começam a ter com 30 anos.

Há dez anos, fazer
30 era simplesmente uma irrealidade tão distante quanto um exame de próstata. Hoje, imagino o que vou fazer da vida quando (ou se) chegar aos 50 – preciso começar agora a pagar à previdência, comer fibras, escrever minhas memórias, voltar a correr, ler "Em busca do tempo perdido" e fazer um check-up dentário. Esse é o tipo de lista que os seres humanos começam a fazer com 30 anos.

Hoje, vejo que aos 20 era um imbecil que não sabia nem dar bom dia a uma mulher, como diria Nelson Rodrigues. Aos 40, espero não chegar à mesma conclusão quando reler essa crônica. E, sobretudo, não me arrepender demais do trecho da minha biografia correspondente à década que começa hoje. Preocupar-se com a opinião que você terá sobre si mesmo no futuro é o tipo de antecipação inútil que os seres humanos começam a ter com
30 anos.

Nos últimos anos da minha já saudosa década-perdida de 20, passei metade dos meus dias fora do Rio de Janeiro. Isso me fez entender com lucidez os motivos pelos quais eu amo (e também odeio) a cidade onde nasci. Com três décadas nas costas, você já sabe qual é a janela de onde você enxerga o mundo, e esse é o tipo de visão que os seres humanos começam a ter com
30 anos.

Aos
30 anos, você sente essa compulsão estúpida por fazer contas: quantos ossos quebrados, quantas linhas publicadas, quantos endereços, quantas vezes pra sempre. E, assim, cede à tentação estéril de buscar algum sentido ao colocar as coisas em perspectiva, ilusão típica de seres humanos que completam 30 anos.

Tudo o que você não é, ainda pode ser a partir dos
30 anos - com óbvias exceções como astronauta, atleta olímpico ou concertista de piano. Ainda dá tempo de escrever a grande obra, ser uma estrela do rock, morar num veleiro e começar a fazer cinema. Esse é o tipo de pretensão delirante e desesperada onde os seres humanos podem, ainda, se refugiar aos 30 anos.

No entanto, algo acompanha os
30 anos que é mais importante do que todo o resto: a convicção cristalina de que seus bons defeitos não tem cura. De que você é um acidente esperando para acontecer desde que nasceu. De que, depois de cada desastre, a vida seguirá - até que acabe. Esse é o alívio possível, essa é a saída – essa é a iluminação do homem de 30 anos. E aí ele se aproxima, não do homem de 20 ou de 50, mas do homem de cinco, do homem relaxado, tranqüilo e bem resolvido que era quando tinha cinco anos".



[cuenca]

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