terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ardore: Big Bother is watching you.


desde que decidi vir pra Itália eu sabia que essa viagem seria bem diferente de qualquer outra. ok, toda viagem é diferente, todos os momentos são únicos, um passinho à frente e você não está no mesmo lugar. mas passar um mês na terra dos meus antepassados fazendo roteiros tão fora do lugar-comum está sendo uma experiência DE FATO inédita.

é indescritível a sensação de sair na rua com TODAS as pessoas te olhando e vigiando seus passos, suas palavras, o jeito que você toma sorvete e se o sabor de ontem será o mesmo de amanhã. como nossos dias se dividem entre dar uma voltinha logo ali, voltar correndo, esperar, tomar banho, tentar conectar a internet, desistir de conectar a internet, tomar um banho ainda mais demorado, abrir um vinho, cozinhar, comer, tentar conectar novamente a internet, perder a paciência, jogar uma partidinha de crapô (eu ganho sempre, nem adianta....), tomar mais vinho e dormir... se cada passo desses for vigiado... você se sente um pouco no Big Brother.

no need to keep watching. they know.

Calábria. o que mais falar sobre pontinha da bota? olha, posso dizer que eu amava pimenta calabresa. que eu não sabia o quanto as praias eram lindíssimas. eu nunca imaginei o até que ponto os calabreses são mafiosos. não a nossa máfia, essa milícia suja, essa máfiazinha chulé e desdentada que vai tomando conta – como um caramujo silencioso – da cidade outrora maravilhosa.

a Máfia Calabresa é romântica, imponente, territorialista. são os novos senhores feudais, com mão de ferro e fogo, mandando e desmandando nos costumes, horários, sonhos. o mafioso não é apenas a lei, ele é o Senhor do Tempo, uma nuvem preta e pesada. ele é o bandido destemido do nosso imaginário coletivo da infância.

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e pra podermos conversar abertamente sobre a Máfia sem sermos decapitados e pendurados em praça pública, já que Máfia em italiano se diz MÁFIA, resolvemos que o termo designado é COTOVELO. e aí passamos o dia apostando quem é do cotovelo e quem não é.

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finalmente, pra vocês se sensibilizarem com a minha causa: está bem friozinho aqui, uns 10 graus. e a internet não pega em lugar nenhum da casa, só na varanda. nossos dias tem se resumido a intercalarmos quem MORRE DE FRIO enquanto usa a internet. haja amor.



PS: aviso aos familiares queridos que, coincidências à parte, enquanto eu escrevia esse texto, o Vigile passou.

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