segunda-feira, 14 de março de 2011

papel picado




Ela sempre teve essa mania de gostar de coisas antigas. O cheiro da sopa da vó. O sapatinho guardado da boneca da infância. Aquele velho telefone preto que nunca funcionou. A delicadeza áspera da camisa do avô. O relógio antigo no canto da parede, como que parado no tempo, um par de anos atrás. As cartas de amor.

Gostava de escrever as tais cartas, como tudo que nos lembra que a nostalgia quase sempre faz bem. Daquela textura do papel roçando na mão, e das palavras surgindo como num passe de mágica. A forma com que escolhia cada uma delas, e aqueles desenhos surgindo na folha. O carinho dentro da carta. E o infinito desejo de ler e reler uma carta bem escrita, pra sentir de novo o que da primeira vez se sentiu. Como se fosse possível voltar aquele suspiro no tempo.

Ela tinha mania de viver o passado. Herança de uma infância feliz, cheia de sonhos e cada uma das suas possibilidades. Foi antes de teimarem em dizer que, pra gente se dar bem nessa vida, não se pode criar tantas expectativas. Coisa de gente machucada, e ela sente muito que tenha doído tanto, mas era o seu sonho e ela que decida o quanto se queria sonhar. E que ele acreditasse e sonhasse junto, porque ela cresceu se enamorando de cada um deles e se tem um direito que a gente deve ter nessa vida é esse: O direito de sonhar. Ainda que o castelo seja de areia. E que ninguém duvide, e que ninguém desfaça.

Cresceu embalada pelo Walt Disney. E aí que ela queria que um dia o príncipe descobrisse que a princesa era ela e que os dois vivessem um tão sonhado conto de fadas. Ainda que fosse um desses modernos, cheios de chegadas, partidas, pulos e lágrimas. Ela só queria era ser a moça contente que passeia numa ruela de uma cidade qualquer, talvez Lisboa, talvez Paris; Uma coisa assim vestido esvoaçante, e que o moço descesse do cavalo só pra colocar uma margarida no cabelo perfeito da moça feliz. Ela só queria ser feliz da vida pelo menos mais uma vez, por mais que esse "só" pareça ingênuo. Ela ainda acredita tanto que a vida é simples e como a gente complica as coisas dessa vida, meu Deus.

Mas ela queria que o moço do cavalo entendesse que espontaneidade não se cobra. E que ele soubesse preservar com cuidado cada um daqueles momentos de paixão do dia do vestido florido. Que ele fosse um príncipe bravo e valente e puxasse pra fora o seu melhor lado, e que os dois caminhassem juntos, ombro a ombro, correndo contra o vento de mãos dadas, sem conseguir tirar aquele sorriso colado no canto da boca.

Queria isso, e que ainda fosse leve. era muito? Não pra ela. Ela queria junto fazer ser leve. porque de repente o ar ficou escuro e tudo pesou. Até ela. Que só queria a margarida de Paris. Ela queria ser a Amélie e ele cismou com essa coisa Almódovar. Dois personagens da mesma história. A mesma cena em paisagens tão diferentes.

E foi por isso que aquela carta nunca chegou.

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Foto: observando.

Um comentário:

analicks disse...

Putz, muito perfeito esse post amiga. E que existam mil príncipes...para cada uma de nós e para cada vez que sentirmos necessidade de voltar a sonhar.