sábado, 30 de abril de 2011

complexo de Cinderela



Me lembro como se fosse ontem: Acordei um dia na casa do meu avô em Copacabana e, pela televisão, Lady Di seria feita princesa ao se casar com o Charles.

Não é possível que eu lembre. Eu tinha 2 anos. Mas eu me lembro.

Cresci um pouco sem entender como é que aquela moça bonita que, mais cedo ou mais tarde, todas nós quereríamos ser, poderia ter dito "sim" àquele sujeito feioso do nariz engraçado. Ah, o amor! Anos mais tarde, eu ainda não entenderia.

Cresci protegida pela redoma das histórias do Walt Disney. Assistia àqueles filmes e devorava aqueles livros como que para me convencer de que aquela era a minha história e um dia aquele conto de fadas poderia ser meu. Que haveria de haver nesse mundo um moço predestinado e prometido somente a mim (ah, o amor! anos mais tarde, eu ainda não entenderia!). E haveria de ser um moço bonito, destemido e valente, capaz de enfrentar exércitos, a fúria da mãe, cada um dos seus dragões de pelúcia e a tal da bruxa má, e viajaria pelos sete mares só pra encontrar a dona daquele sapato. Que me despertaria do sono profundo com um beijo urgente apaixonado o bastante pra que nunca tirássemos da boca aquele gosto de pirlimpimpim.

Cresci esperando e sem deixar de acreditar. Ainda que me dissessem que não. Ainda que EU me dissesse que não. Ainda que as coisas da vida tenham sido tão bonitas e tão diferentes daquilo que eu sonhava. Ainda que tenhamos nos jogado para caminhos tão distantes. Ainda que, por mais de uma vez, tenhamos dado ouvidos ao sapo errado. E ainda que esse sapo tenha estraçalhado aquele nosso sorriso da infância. Ainda que tenha sido bom. Ainda que, para reconhecer que era bom, tenha sido preciso apanhar tanto. E ainda que tenha doído. Ainda assim, no canto do cisco do canto do olho, aquele pontinho de luz nunca deixou de esperar por aquele dia que ele sabia que haveria de chegar. Ainda que apesar das mãos calejadas, do nó na garganta e de todo esse cansaço, esse brilho no olho teime em não ir embora. Porque ele se sabe. Simples assim.

São sentimentos que não se entende. Se são. Coisa de menina que se sabe princesa e é por isso que ela não para de sorrir. Porque sabe que ainda que demore, ainda que num reino distante, ainda que por um dia, ainda que num sonho o Prince Charming vai se dar conta de quem ela é.

E foi por isso que fui mais uma entre o 1 bilhão de meninas que parou em frente à tevê no dia de ontem pra testemunhar aquele "I do". Porque eu queria ser parte daquele sonho, ainda que um pedaço de mim morresse ao se dar conta de que não, eu nunca mais me casaria com aquele menino loirinho e bonito filho da moça do casamento de 30 anos atrás que, cá pra nós, há muito tempo eu já nem queria mais.Foi pra dar corda nessa coisa de saber dentro de mim que sorri e chorei ontem pela Kate, aquela plebéia nervosa e linda naquele vestido perfeito num corpo magro demais. Mas ontem, por um minuto, dentro daquele sorriso contido, cada uma de nós foi por um momento a menina mais feliz do mundo.

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"Toda mulher se sente uma princesa quando está feliz. não porque encontrou o príncipe pronto, mais sim quando beija o sapo certo". Manoel Carlos. Cada um tem o Walt Disney que merece.

6 comentários:

Jubsky disse...

sempre identifiquei em mim esse complexo de cinderela tb... mas eu acho isso bem perigoso pra mente das menininhas. o mundo mudou, ora. a vida tem que ser nossa, sem esperar por homem nenhum

Vanessa disse...

Eu madruguei pra ver o casório. Mas, não chorei. Acho que o que me faz chorar,na verdade, é a marcha nupcial.
Lindo texto.

Fernanda Neder Martinez disse...

eu tenho um pouco de pena da nova princesa... imagina a gente ali, amiga... que saaaaaaaaacooooo!!!!! rs... ela nunca vai poder ir no boteco da esquina com seu príncipe e tomar um porre e voltar dançando pelo meio da rua. a gente pode! thanks god! viva a liberdade da princesa moderna! :)

Vanessa disse...

Que bonitinho. Eu acho que a gente pode adaptar a história do Walt Disney pra qualquer ambiente. Não precisa ser em Londres nem em New York. Pode ser aqui pertinho. Na roda de samba do quintal do vizinho. :) O bom é ser feliz assim...
Escreve mais pra gente.

Bruno Quintella disse...

A emoção da plebeia deve ter sido única mesmo. A plebeia que vira princesa. Mas bonito mesmo é quando a princesa vira plebeia, em busca de seu sapo perfeito, em brejos distantes do reino... Meio Winslet et DiCaprio - meio Tristão e Isolda.

Gostei muito do texto. Beijo.

Julieta Abiusi disse...

Sempre tive (tenho?) um baita complexo de Princesa mas de um jeito bem naif haha. Concordo com o coment que exalta a vida das princesas modernas. Pq ninguém merece protocolo, né!? Muito chato! E tb acho q sempre dá pra adaptar um reino pertinho da gente :o)