quarta-feira, 6 de abril de 2011

eu sou cada uma das minhas pequenas vitórias

Saiu de casa não faz nem três meses; chutando a porta, mordendo o ar, tateando o mundo de volta com aquelas (en)tão cansadas mãos. Estava triste, porque era assim que ela achava que era certo ela estar. Mas nem dela mesma e nem do moço que olhava ela lendo o jornal na fila do pão era possível pra ela esconder o alívio que sentia naquele grito de liberdade que pulsava adrenalina nas suas veias. E então ela só queria alcançar cada vez mais longe, puxando a coragem que não tinha do centro do seu umbigo e repetindo pra si mesma o conselho do Camelo: Aponta pra fé e rema.

Saiu deixando tudo para trás. Só pegou aquilo que de fato lhe era caro – a foto desbotada, o livro de viagem, o vestido que dançou até o sol raiar, duas taças roubadas na viagem do livro, as princesas que ela acreditava que tinha sido e o martelo do avô. Não havia mais nada que ela precisasse nessa vida pra ser feliz – e disso sim ela tanto precisava. Deixou tudo pra trás sem piedade nem dó; ‘vão-se os anéis, ficam os dedos’. ‘Eu tenho um colchão inflável e todos os sonhos do mundo’, pensava ela em busca das suas próprias frases de efeito.

Se atrapalhou no começo, claro. Estava destreinada nas coisas do mundo. E mesmo ela, sempre tão brava, numa onda se perdeu. Teve medo do barco virar e foi justamente num descuido que isso aconteceu. E doeu. Mas… Ela, que já tinha ido tão longe. Passou. Buscou o ar no seu centro de gravidade e subitamente distraída a tal felicidade chegou.

Chegou quando ela entendeu que estava dentro dela desde o início, como a criança que de repente se dá conta da imagem no espelho e ri. E finalmente ela relaxou.

E hoje, quase 3 meses depois da partida, chegou a cama, aquela última peça que faltava. Talvez por todo o sentimento que esse móvel carregue, a cama ela preferiu deixar por último, meio que sem saber porquê. Na verdade não precisava; ela, que tinha os sonhos e o colchão. Ela, que do que precisava já tinha. Ela, que em silêncio esperava tanto e num suspiro exigia tão pouco. Passados quase três meses, ela se deu conta de que já merecia. E hoje ela chegou.

Subiu sozinha a cama no elevador. Abriu a porta da casa ressabiada com a felicidade que estava por vir. Empurrou a cama pra dentro, fechou a porta nas costas, se serviu uma taça de vinho, sentou no chão.

Pensou: 'eu sou cada uma das minhas pequenas vitórias'. E, no escuro do seu quarto, sozinha e feliz, ela chorou.

3 comentários:

cla disse...

amei amiga, tao lindo! viva a luana!

Fernanda Neder Martinez disse...

ai que lindo, amiga!!! emocionei. viva a felicidade!

Nathy disse...

Oi Luana!!! vi um post seu no site mochileiros.com, comecei lendo sobre suas viagens pela Europa e simplesmente não consegui parar de ler seu blog!!!haha mto boooommm, parabéns!!!