quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sobre vinhos, carregadores e cigarros


Senti uma falta bizarra de você puxando meus cabelos ontem à noite.

Acordei e vi que suava frio, tremendo de medo e de saudade. Parei em frente ao espelho pra encarar aquelas olheiras tão doídas e senti um pouco de pena. E de repente me dei conta de que nem mais sabia quem você era. Mas confesso que me senti um pouco mais leve. Ainda que as partidas doessem, como me dizia às vezes o Caio. Eu tinha certeza que era bom viver e, se necessário fosse, eu aprenderia a viver feliz sem você.

Lembrei de como era reconfortante a companhia dos cigarros que eu já não fumo mais e pensei porque diabos eu fui parar de fumar logo agora que você foi embora de casa. Tive vontade de te ligar, mas não consegui achar o carregador e pensei que, no fim das contas, isso deveria ser um sinal. Me senti igual aquela minha amiga que você odeia, que vive dizendo que geralmente tinha cigarros, mas nunca encontrava os isqueiros.

Coloquei um disco de Jazz pra ouvir e tentei me lembrar porque mesmo eu fui jogar aquela velha vitrola fora há anos atrás. Parei pra pensar na quantidade de músicas que não ouviríamos mais e me senti tão triste. Se eu soubesse, teria te concedido uma última dança em vez de querer ir embora daquela festa. Nós e os nossos descompassos.




(Suspiro)

Olhei pro céu naquela noite fria e senti ciúme de quem quer que fosse a tua companhia agora. Quis te xingar, mas lembrei do cigarro, do carregador e que eu havia tomado uma decisão. Justo eu, que estava leve e feliz. Decidi não ia cair mais nas tuas armadilhas e finalmente eu consegui sorrir.

Abri uma garrafa de vinho e bebi ele a seco bem daquele jeito que você sempre brigava comigo. Eu e essa minha mania de querer engolir o mundo. Abri o livro do Henry Miller justamente naquela frase que você tanto gostava: "Quando não se há mais o que fazer, Paris é o lugar certo". E pensei em todas as viagens que não faríamos mais juntos. E todos os risos que não seriam mais por sua causa. Eu e essa minha mania de achar que poderia te salvar. Mas, pelo menos, pensei também em todas as vezes que você não ia nunca mais me ver chorando. E fiquei feliz por conseguir então ir embora com essa minha mania que você tanto odeia de querer controlar as horas e a temperatura do corpo, como se isso possível fosse numa noite tão fria.

Resolvi então dormir e tentar mergulhar de volta no meu mundo dos sonhos onde eu finalmente posso ter paz e ser feliz sem você. Onde eu posso viver pra sempre entre as margaridas no vestido, os puxões de cabelos, os carregadores de celular e, definitivamente, entre todos esses malditos cigarros que eu nunca mais ia precisar se estivesse ao seu lado.

domingo, 26 de junho de 2011

Espera


- Peraí.

- Ai, porra. Quê que foi agora?

- Peraí, ainda não tô pronta.

- Porra, como assim, não tá pronta? Eu vim até aqui pensando que...

- Peraí, também, que drama. Só tô dizendo que não tô pronta. Que eu tô me aprontando...

- Se eu soubesse que você não tava pronta, eu ainda não tinha vindo.

- Ih, pronto, começou.

- Comecei nada. Você que veio com esse papinho de não tô pronta. E desde quando tem que estar pronta?

- É que eu quero que dessa vez dê certo. Você não entende. Aliás, você nunca me entendeu. Eu preciso que tudo esteja certinho, sabe? Mas ainda não tá pronto. Pô, não tô te pedindo nada, só tô te pedindo pouquinho de paciência. Eu ainda não tô pronta.

- Eu acho que é frescura, mas tudo bem. Ffffffff. Ô mulé difícil. Na moral: Você perde muito tempo com essa sua mania de querer que saia tudo do jeitinho que tem que ser. Deixa a coisa ser do jeito que é, sabe? Que mania de querer controlar tudo. Já tá bom...

- É, tá bom, mas pode ficar melhor.

- Eu acho besteira, mas enfim, você que sabe. Eu acho que tá bom. Que mania de querer fazer tudo direitinho, perfeitinho, que saco.

- Me deixa.

- Eu deixo, se você quer assim...

- É, quero.

- Claro que quer. Você sempre quer tudo do seu jeito.

- Hã? Quê que você falou?

- Falei que você quer tudo sempre do seu jeito.

- Não, senhor. Eu quero tudo do jeito certo.

- (impaciente) Tá bom, meu amor. Ai, ai. Se você estivesse se arrumando durante todo esse tempo que você fica falando nãotôprontanãotôprontanãotôpronta, você já tava pronta.

- Vem cá, vai ficar falando assim? Então foda-se, não quero mais ir. Grosso pra caralho, não fode.

- Ah, claro. Eu. Olha quem fala: a pessoa que coloca 3 palavrões numa frase só. E depois eu que sou o grosso. Aliás, tu tá falando palavrão pra caralho, hein? Tava reparando nisso outro dia.

- Eu não sou grossa. Eu sou grossEIRA. Você que tá me atrasando. Vem cá, vai deixar eu me aprontar ou vai ficar aí enchendo a porr... o saco?

- (risos) Vai, se arruma. Eu espero. Mas você já tá linda assim.

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E numa bela manhã de sol, de repente, ela olhou para o nada e se deu conta de que já estava feliz novamente.

"Mas um velho me falou / que Jana jamais bancou / vinganças no desamor e então / voltei ao mesmo lugar / com peito aberto sem dor / aí o meu coração sarou".

quarta-feira, 22 de junho de 2011

choices



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Só pra me lembrar todo dia do mantra que aprendi há anos atrás e nunca, nunca, nunca mais deixei de entoar: Felicidade é uma opção de vida :)



sensacional


Que saudade que me deu das minhas aulas de filosofia. Porque não apenas o universo, mas também nós mesmos estamos em expansão :)


Vale rever.



segunda-feira, 20 de junho de 2011

cheque-mate.


"You spend all your time preaching about waiting for love. Well, here it is. Right in front of you, and you're going to turn your back on it. So I guess we're just fucked. I'll move on. But you are going to have to live the rest of your life knowing that you've turned your back on love. And that makes you a hypocrite. Have a nice life".

[Diálogo retirado do "Segundas Intenções"]


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E foi assim que acabou o nosso amor: Com o cheque-mate da rainha.

E o rei caiu, atônito, afônico. Mas não desceu daquele trono nem pra impedir que ela partisse.

E agora assim que vai ser a vida: Pra sempre ele vai olhar pra ela de longe como a menina do vestido esvoaçante que ele escolheu deixar ir embora.

E aí talvez um dia ele ligue. Ou não. E aí talvez ela atenda. Ou não.

sábado, 18 de junho de 2011

desafino


"E aí você foi embora e me deixou como um violino sem cordas".

Essa frase não é minha. é da Monteagudo, minha ídola que cisma em vir com o pensamento preciso nas horas mais incertas. Mesmo que no auge do meu desespero e eu nunca terei palavras pra agradecer o que ela fez por mim naquela terça-feira chuvosa. Ainda que às 3 da manhã, às duas insones, cansadas, entregues, mas ouvindo Chopin e ainda acreditando.

Achei essa frase a coisa mais linda e pensei que valia a pena deixar na pauta.

último Tango em Buenos Aires [para Ciana]


... Se você me quer mesmo então bate aqui na minha porta.

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E aí pensei que liberdade às vezes pode ser justamente não ter medo de criar amarras.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

if you know what I mean



:)


nós



Cá pra nós eu preferia profundamente ter continuado a escrever aqueles meus textos boboalegres em vez de ter que preencher uma tela em branco com esse seu vazio que me inspira tanto.

Como me cansa ter que ouvir o quanto é bonita a nossa dor. Como dói um elogio àquilo que agora nos inspira sem querer. Como incomoda ter que achar o belo onde eu não estava procurando.

E o quanto eu no fundo queria não ter sentido aquele alívio todo quando virei as costas pra você e fui embora sem nem sentir o seu olhar pesado às minhas costas. Que triste foi ouvir seu pensamento decidindo se me deixaria mesmo finalmente ir.

Porque o que a gente quer mesmo é acreditar que tudo isso não passa de uma mentira e que você nunca me deixaria ir embora assim. Não debaixo desse silêncio, não sem tentar consertar toda essa burrada que você fez com a gente, não sem me pegar pelo fundo do olho e explicar que eu não posso ir embora sem te conceder uma última dança.

E eu riria de você e não iria acreditar em uma palavra. Riria um riso nervoso e doído, como aquele do primeiro beijo roubado. E lembrando disso você me beijaria à força e gritaria porra! me dá uma chance e eu te trago aquele meu sorriso de volta e colo pra sempre esse brilho no fundo da tua alma. E eu iria fingir que te odiava tanto e te diria que és cristal quebrado e que você ja era, pra aí então você ia calar minha boca com um beijo tão apertado que eu ia morrer. Morrer nos teus braços como daquela primeira vez.

E aí então você me pediria desculpas baixinho igual àquela sexta-feira em que você tão mal me fez. E eu ficaria confusa e triste por não saber por qual dia a desculpa era. E me perderia naquele labirinto de tristeza e sentiria de volta toda aquela dor que me inspira tanto. E te deixaria ali parado com todo esse seu vazio. E te prometo que calçava meu salto e tentaria ir embora com uma pitada de raiva por não poder te esconder essa maldita lágrima. E ao me ver chorar mais uma vez você deixaria de lado esse seu orgulho besta pra finalmente me implorar que eu fique e te ame por cada um dos seus defeitos. E você descobriria então que me ama de um jeito tão bonito que eu quase acreditei nesse sonho tão intenso, tão lindo, tão maldito.

O triste é não querer mais justo aquilo que tanto queríamos e como eu gostaria que tivesse sido tudo diferente. Que estivéssemos os dois no mesmo ponto, logo ali antes da curva da estrada. Como eu queria poder querer que você não fosse quem você é.

notas mentais [para o dia de ontem]



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Foca aí na missão, vai. Aponta pra fé e rema.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

(des)espera


E, quando você menos espera, a resposta que você tanto precisava vem através das bocas mais improváveis.

"Perder-se também é caminho", dizia uma Clarice reflexiva justamente através da boca daquele que já não era. Mas não tem jeito: Algumas pessoas simplesmente são.

Então vamos lá, para o alto e avante, como sempre. Porque a vida é uma só, porque gente é pra brilhar, porque o mundo dá muitas e muitas voltas e viver é bom nas curvas da estrada, porque cada vez mais eu vejo que aquilo que não mata, fortalece e, principalmente, porque a gente é o que é, o sapo e o escorpião, nunca brinque com um peixes de ascendente escorpião.

desata até nó na garganta


"Meu Deus! Como é engraçado.
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço.
Uma fita dando voltas. enrosca-se, mas não embola.
Vira, revira, circula e pronto, está dado o laço.
È assim que é o abraço (...)
Ah, então é assim o amor, a amizade, tudo que é sentimento.
Como um pedaço de fita.
Enrosca, segura um pouquinho, mas não pode se desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas bandas do laço.
Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga então se diz: romperam-se os laços.
Então o amor, a amizade são isso.
Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço."

[Quintana, quarta, chuva]

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Bastar sentar, fechar os olhos e sorrir. Porque é preciso sorrir mais. sorrir até com seu fígado, como dizem por aí.

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E 12 meses se passaram nesses últimos 30 dias.

domingo, 12 de junho de 2011

oh happy day



Fiquei pensando o que escrever no dia de hoje. Dia dos namorados. Mais uma data comercial inventada pra aumentar as vendas e fazer alguns tão felizes e outros tão tristes.

Mas, na boa? Adoro dia dos namorados, assim como adoro aniversários, reveillons, carnavais e até o Natal, com toda aquela tristeza e toda aquela saudade. Adoro isso de estar viva e curtindo o momento. E, por isso, adoro esse dia feito pra celebrar o amor, a nossa capacidade de encontrar pessoas especiais, de abrir o coração pro outro, de ir conhecendo e se encantando aos poucos, de ter uma capacidade infinita de se apaixonar pela novidade, pelas diferenças, pelos momentos incríveis. Acho sensacional a forma que o dia é celebrado nos Estados Unidos, em 14 de fevereiro, dia de São Valentim. Lá, na terra do time is money, Valentine's Day é dia de dizer pro amigo o quanto você o ama, é dia de dar flores pra avó. Um dia feliz. Simples assim.

É, as vezes dói. Mas que bom que temos essa infinita capacidade de curar as cicatrizes, aprender com os erros (nossos, deles), erguer a cabeça e andar com a vida. E que os muitos quebramolas do caminho não magoem a ponto de nós tornarmos cretinos incapazes de acreditar no amor. Quem não gosta de dia dos namorados é porque não sabe (mais) amar.

Fiz então uma seleção de fotinhos catadas por aí especialmente pra esse dia.










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Além disso, hoje é o aniversário de duas pessoinhas tão especiais pra mim. Resta então ficar feliz pela vida que, definitivamente, é a arte do encontro :)

sábado, 11 de junho de 2011

just like that


Acordei com uma velha lição na ponta da língua. "Saber e não fazer ainda não é saber". Lao Tsé, dizem. Mas poderia ser qualquer um, afinal pouca diferença faz quem é o autor da frase, o que verdadeiramente importa é o efeito que ela faz dentro de nós. "Quem quiser gostar de mim, eu sou assim"... Mas haverá nesse mundo alguém disposto a verdadeiramente nos tomar do jeito que somos, aceitando a nossa covardia, todas as nossas certezas, esse medo, a nossa euforia e a nossa preguiça em dar ao menos um passinho pro lado no nosso plano original?

E seu plano original, a quantas anda? igual?

Que pena. Depois de tantas interseções, me resta acreditar que é uma pena o fato de, apesar de todo o contato, de toda a alegria, de toda a dor, de todo o riso, de toda a lágrima e todo o amor, tem gente que passa pela nossa vida sem aprender quase nada.

resta então sentar, colocar uma música que nos aqueça a alma, abrir um bom vinho, cruzar as pernas e esperar pra ver quem sorri por último.

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Puft. and just like that, we didn't make pretty much sense anymore.

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Em tempo: "Tranquem os livros, tranquem o mundo, tranquem as cédulas, tranquem as pessoas em casa. Os sonhos são meus". [Bernardo Soares]

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Pasárgada



"Eu moro dentro de mim mesmo". Quintana.

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E aí que, de repente, num relance em meio de uma tarde chuvosa, você se dá conta de que está feliz de novo. E que era só uma questão de dar um passinho pra trás, olhar sua vida de longe, lembrar quem você é, redirecionar e sorrir.

sábado, 4 de junho de 2011

balão mágico




E aí que de repente eu me dei conta de que às vezes a vida é como um balão que sobe, sobe, sobe... E aí que, na paisagem da vida, a gente achava bonito aquele balão.

Até que num belo dia, apesar do sol, ventou. E o balão, claro, vertiginou. Desesperado pra controlar o balão, ele olhou pro lado correndo e viu que a bagagem talvez estivesse pesada demais. E pensou que era o momento de dispensar coisas.

Num impulso, sem se dar conta, ele resolveu jogar fora justamente o baú do tesouro.

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É, o balão ficou leve. Mas... E o que sobrou?
Nada.

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"Se enamora
e fica tão difícil de ir embora
e às vezes escondido a gente chora
e chora mesmo sem saber porque"

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Pro Jacomo, meu amigo poeta, que sempre me mostra a vida por um outro ângulo.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

o sorriso e o silêncio



O dia amanheceu num cinza triste. pela janela do 157, ela olhava o Cristo cheio que nuvens que encobriam suas lágrimas. E, olhando pr´aquele céu pesado e denso, ela pensou: "vai chover".

Pensou também naquela frase que ela cismava em decorar: "Vai passar". Acreditava verdadeira e naturalmente na impermanência das coisas e na velocidade da vida. Era 2 de junho: Um dia triste, esperado e especial. Quase meio ano tinha se passado. A vida voava. a vida era urgente.

Mas... o que sabia ela da vida? Sabia ela [e isso ela bem sabia] da vida dela, da sua dor e da sua própria delícia. Saberia ela da dor do outro? Do alto da sua busca pela sua própria paz de espírito ela nunca compreenderia de fato o tanto de forte que doía nele ser quem ele era.

Então, naquela cinzenta e fria manhã de outono, ela pensou que no fundo queria tanto ter conhecido aquele pai. Entender cada uma das histórias pra poder reescrever aquilo de um jeito mais bonito. Histórias tão diferentes, histórias tão iguais. Histórias de amores arrancados pela roda da vida e essa coisa dela teimar em ser veloz.

Através daquela janela fria ela pensou que no fundo estamos todos sempre tentando reescrever a nossa própria história. Contar ela pro mundo do jeito que só a gente vê. Às vezes leve, às vezes à fórceps. Mas que era preciso tirar aquilo de dentro deles pr´aquilo ser livre e seguir seu próprio curso - e eles também. E que, se não existe crescimento sem dor, que não exista então dor sem crescimento, para que tudo isso faça sentido e que ela não seja mártir do seu próprio final feliz.

Queria tanto que você tivesse conhecido meu avô. O avô feliz da cadeira de balanço. O avô que cuidava dela e sempre fazia ela sorrir. O avô que, naquela fria manhã de outono, só ela sabia a falta que ele faz. Porque foi o avô que fez ela acreditar que tudo era possível quando se quer de verdade - ainda que de uma outra forma, ainda que em outro momento. Mas que falta fazia aquele avô que ensinou que nós somos feitos de carne, osso, riso e lágrimas. E como ela queria, nesse dia de hoje que ela queria que não doesse tanto, poder enxugar cada uma dessas lágrimas que não saem daquele peito que morava no inverno do seu próprio tempo. Então ela ficou ali, pensando calada, confortada pela sua própria alegria e pela sua própria dor.

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Não choveu. Abriu um sol tímido e bonito, típico de uma manhã de outono. E com sua leveza, sua serenidade e sua sede de vida, ela pensou que tudo aquilo ia passar... E sorriu. E dedicou a ele toda a sua poesia, todo o seu sorriso e todo o seu silêncio.