quinta-feira, 2 de junho de 2011

o sorriso e o silêncio



O dia amanheceu num cinza triste. pela janela do 157, ela olhava o Cristo cheio que nuvens que encobriam suas lágrimas. E, olhando pr´aquele céu pesado e denso, ela pensou: "vai chover".

Pensou também naquela frase que ela cismava em decorar: "Vai passar". Acreditava verdadeira e naturalmente na impermanência das coisas e na velocidade da vida. Era 2 de junho: Um dia triste, esperado e especial. Quase meio ano tinha se passado. A vida voava. a vida era urgente.

Mas... o que sabia ela da vida? Sabia ela [e isso ela bem sabia] da vida dela, da sua dor e da sua própria delícia. Saberia ela da dor do outro? Do alto da sua busca pela sua própria paz de espírito ela nunca compreenderia de fato o tanto de forte que doía nele ser quem ele era.

Então, naquela cinzenta e fria manhã de outono, ela pensou que no fundo queria tanto ter conhecido aquele pai. Entender cada uma das histórias pra poder reescrever aquilo de um jeito mais bonito. Histórias tão diferentes, histórias tão iguais. Histórias de amores arrancados pela roda da vida e essa coisa dela teimar em ser veloz.

Através daquela janela fria ela pensou que no fundo estamos todos sempre tentando reescrever a nossa própria história. Contar ela pro mundo do jeito que só a gente vê. Às vezes leve, às vezes à fórceps. Mas que era preciso tirar aquilo de dentro deles pr´aquilo ser livre e seguir seu próprio curso - e eles também. E que, se não existe crescimento sem dor, que não exista então dor sem crescimento, para que tudo isso faça sentido e que ela não seja mártir do seu próprio final feliz.

Queria tanto que você tivesse conhecido meu avô. O avô feliz da cadeira de balanço. O avô que cuidava dela e sempre fazia ela sorrir. O avô que, naquela fria manhã de outono, só ela sabia a falta que ele faz. Porque foi o avô que fez ela acreditar que tudo era possível quando se quer de verdade - ainda que de uma outra forma, ainda que em outro momento. Mas que falta fazia aquele avô que ensinou que nós somos feitos de carne, osso, riso e lágrimas. E como ela queria, nesse dia de hoje que ela queria que não doesse tanto, poder enxugar cada uma dessas lágrimas que não saem daquele peito que morava no inverno do seu próprio tempo. Então ela ficou ali, pensando calada, confortada pela sua própria alegria e pela sua própria dor.

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Não choveu. Abriu um sol tímido e bonito, típico de uma manhã de outono. E com sua leveza, sua serenidade e sua sede de vida, ela pensou que tudo aquilo ia passar... E sorriu. E dedicou a ele toda a sua poesia, todo o seu sorriso e todo o seu silêncio.

4 comentários:

Vanessa disse...

:)
eu entendi.

felipemuller disse...

não é preciso ter passado pela mesma dor para entender alguém. isso pq no cerne da questão, tudo é dor! e a dor tb não pode nos colocar em um pedestal de "eu sou o único que já passou por isso". dor é doída e pronto. sempre vai ser. ela pode aproximar as pessoas ou afastá-las. a questão é: afastando, vai deixar de doer? lindo texto amiga.

Michelle Chevrand disse...

Eu queria tanto ter conhecido o vô Ulisse... todos dizem que eu ia amá-lo. Mas o importante foi essa sementinha que ele plantou em você, e no Uirá, e que está se espalhando no mundo e nas próximas gerações dos Fornaciari...

Bruno Quintella disse...

É como ouvi de um amigo ontem: só se fala em morte. Depois, vida. Mas o oposto da morte é o nascimento. Vida não tem contrários. E é no amor que podemos conhecer quem não conhecemos - e conhecer quem não conhecíamos. E é na saudade que isso sempre será possível, mesmo depois da morte, mesmo durante a vida. Por isso nascemos. Um beijo e obrigado pelo texto. É incrível. :)