terça-feira, 12 de julho de 2011

Sem palavras


Ela girava lentamente a taça de vinho, tentando buscar num último suspiro as palavras que não conseguia pra dizer tudo aquilo que sentia falta neles dois. Olhou mais uma vez através daqueles olhos que a deixavam muda e ela tanto odiava. Ele sorriu. Ela não conseguiu acreditar. Estava cansada. Estava certa.

Tanto já foi dito entre eles, pensou. Não queria mais insistir naquilo. Não havia sorriso que salvasse aquele desencanto. Fechou os olhos. Tic-tac. Não queria que tivesse sido assim. Mas fora. Ela deixara, também. E pensou nos vinhos que não beberiam mais. Nos sorrisos que ela sentiria falta. Na falta que já sentia daquele último sorriso, tempos atrás.

Pensou no tanto que não foi dito entre eles. Em tudo aquilo o que ela tanto precisava ouvir. Nas bobagens que ela nunca mais ouviria. Na escolha absurda que ele fizera pela surdez. Confortável e egoísta. Sentiu saudades da alegria do começo. Lembrou daquela briga idiota que tiveram na última viagem de férias. Estava cansada daquelas brigas. Respirou aliviada, afinal. Estava triste, mas tranquila ao ponto de quase se sentir feliz.

Virou aquele Malbec em um só gole e percebeu que já não estava mais ali. Que para sempre então eles seriam o casal do dito-pelo-não-dito. O casal que já não era. O casal do "e se". "E se é o caralho", pensou. Covarde. Balançou a cabeça e olhou pro relógio. "Que foi?". Nada. Sorriu, entregue. Adorava aquele "que foi?. Queria ter dito isso pra ele há anos atrás. Mas já passava da meia-noite. Respirou fundo.

Ele levantou e se olhou no espelho. Sempre adorou espelhos, pensou ela. Ela também, mas o motivo era outro. Se olharam no espelho, os dois. Ele sorriu e ela pensou que talvez eles fossem apenas um reflexo bonito no espelho do elevador. E como seriam chamados desde então? Aqueles dois. O casal que se cansou. O que nem chegou a ser. O que nunca seria mesmo. O casal que não teve mais forças pra acreditar. O casal que se cansou de ouvir, o casal que se cansou de falar. Aquele cara, que namorava aquela menina do vestido colorido. O casal do apartamento em frente, o casal daquela mesa ao lado, aqueles dois que pareciam tão felizes, aqueles dois que estavam sempre dançando, aqueles dois que estavam sempre rindo, aqueles dois.

O casal do what if.

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Ela partiu, partiu, e nunca mais voltou. É o que dizem.

2 comentários:

Carla Nebel disse...

Mandou muito bem, Luana!

Michelle Chevrand disse...

Me inspirou. Vou escrever no meu blog.