segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Closer

De repente ela sentiu aquela dorzinha leve e chata preocupando a sua cabeça - sempre isso, agora - e tudo pareceu confuso e embaçado. Precisava rever aqueles óculos, ela sabia.

Levantou, olhou através da janela cinza e fria os carros que desfilavam em câmera lenta por aquela bucólica rua do Leblon. Se serviu de um chá qualquer - o que importa é o calor da alma, o gosto parece sempre o mesmo, afinal - e bebericou lentamente, querendo que o frio demorasse a ir embora justamente agora que ela pudera tirar aquele casaco novo do cabide.

E se perguntou porque é que ela tinha aquela mania de brigar com o relógio. Que uma vez que eles tinham percebido o quanto poderia ser interessante a troca de olhares de longe - o prazer da sedução às vezes parece estar mais na demora do que na conquista - eles talvez tivessem perdido a mão e a distância focal: Estavam perto demais.

E ficou triste ao pensar que depois de toda aquela longa conversa over a wine naquela fria madrugada de sábado talvez já não fosse possível se enganar. Que uma vez exposta uma certa dose de cretinice e todo aquele cansaço que tornava evidente a sua falta de fé no amor [eterno], talvez os dois tivessem que aceitar que aquela não era a hora, por mais que eles gostassem de estar juntos, por mais que se fizessem rir. Que se não se pudessem ter por inteiro, não se teriam pela metade. Esfregou os olhos e enxergou tudo isso assim: Pá! Simples e sem dor.

Porque, lá no fundo, alguma coisa dizia que aquele riso em breve daria lugar a um certo vazio. E, por mais que ele falasse exatamente aquilo que ela queria ouvir e por mais bonita que fosse aquela boca, no fundo ela sabia que talvez não fosse agora, ou talvez fosse ainda. Ele olhava o que queria ver, ela passou correndo e nunca o via. E, mais uma vez, a pressa os faria perder a hora.

E por estarem tão perto não entenderam que talvez não fossem. Ou talvez não agora. Ou talvez não ainda. Ou talvez fosse medo. Ou talvez fosse só vista cansada e no fundo ela talvez precisasse de novos óculos, principalmente agora que a sessão já ia começar e ela bem sabia, no fundo, que o melhor do espetáculo às vezes são aqueles 5 minutos antes da estréia. Depois é ação, é reação, é repetição de texto, é matemática: tentativa e erro, sempre. É dançar conforme a música, um pra frente, dois pra trás, come a little bit closer and so it is just like you said it would be.

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Beijos pra Luiza.

:-)

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