terça-feira, 4 de outubro de 2011

Última chamada

E depois de 9 anos, estava ela de volta àquele lugar onde não pensava em voltar. A vida e as voltas que o mundo dá.

Lembrava como se fosse ontem daquele aeroporto. Aquele silêncio pesado e dolorido. Os olhos cheios de crença na vida que estava por vir. Seria feliz, ela sabia, correndo pra sentar na primeira cadeira da montanha-russa.

Tantos anos depois a vida já imprimia marcas no seu cansaço. Já não tinha 23 anos e toda aquela esperança, mas ainda carregava consigo o seu baú secreto cheio de todos os sonhos do mundo. Viajava pra ter certeza de quem ela era e que tudo aquilo que ela planejou lá atrás ainda era possível. "Conquistar a Ásia, a Oceania e um terceiro continente à sua escolha", seguia repetindo como um mantra. E por isso ela estava de volta: Precisava ao menos convencer a si mesma da importância daquilo tudo.

Porque havia deixado tanto pra trás. Tanto que ela nem esperava. Aconteceu de repente. Num dia ela estava triste e de repente ela estava tão feliz. Ela, que tinha tudo, tratou de buscar o que tanto lhe faltava. O tal sorriso maroto no canto da boca. Ela, que tanto queria viver aquilo. Ela sabia que estava fazendo a escolha certa.

A sexta hora de espera naquele aeroporto começava a impôr o peso em seu já não tão frágil corpo. Não conseguiria dormir e aqueles pensamentos que teimavam em não ir embora. "Você pensa demais", não cansava de ouvir. Talvez.

Tentou ler um livro, ouvir uma música, caminhar, tentou deitar. Não se encontrava ali. Era o Tom Hanks naquele aeroporto: Ela, que queria ser cidadã do mundo, de repente já não pertencia a lugar nenhum. Foi então que a inevitável pergunta veio. "O que foi mesmo que eu vim fazer aqui?". Silêncio. Euforia. Tristeza. Cansaço. "Eu moro dentro de mim mesmo". Eu e Quintana. E vamos fazer tudo isso valer a pena.

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Acordou de sobressalto: "Atenção passageiros com destino..."

Achou sua poltrona, sentou e entregou seus olhos àquele cansaço que já não podia mais. Ainda escutava o burburinho dos passageiros apressados quando sentiu uma mão suave em seu braço.

"Perdón, senhorita?".
Era só o que me faltava, pensou.
"Si?", de mau humor.
"Te importas de cambiar conmigo? Es que estoy con un amigo y quieremos platicar".
Ah, putaquemepariu, era mesmo só o que me faltava. Sorriu, falsa.
"Claro, no pasa nada".
"Entonces. Toma: 3F, allá, adelante. Muchas gracias!!!"

Pegou aquele bilhete de Primeira Classe. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Olhou pra cara do maluco, olhou pra mão, olhou pra cara do maluco e riu.

Tá bem, Deus. Já entendi.

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Mas, assim: Eu nunca mais vou querer viajar de Econômica. Grata.

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Em tempo: "E até quem me vê / lendo o jornal / na fila do pão / sabe que eu te encontrei".

4 comentários:

mãe marilisse disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk... sempre a minha "bem humorada" luluzinha. e não é que de vez em quando "vem uma mão" nos levar pra lugares nunca antes navegados!?!... só tu lulu!... beijo da mãe.

Vanessa disse...

história verídica? não creio!

Michelle Chevrand disse...

Caaaaaaaaaaaaaaaaaaaraaaaaaaaaaa, é muito boam viajar de primeira classeeeeee, só fiz isso uma vez! Mas inesquecível.

Sempre Viva! disse...

Ahahahahahahahahahahahahahahaha!!!!!!!Deus está nas pequenas coisas... ou no 3F =)