terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Sobre as coisas

5 da manhã e essa insônia que teima em não ir embora. Talvez seja a hora de começar a falar sobre isso.

Fui assaltada num trem na Europa. Tá, eu não queria contar isso assim, mas acho melhor contar de uma vez antes que isso vire um câncer.

Justo eu. Tão espertinha, garota carioca, 32 anos de praia. Essa é a graça da coisa. A única. Foi a pior experiência da minha vida e eu estou há 3 semanas matutando se escrevia sobre isso ou não. A minha vontade de que esse post ajude alguém me fez sentar hoje nessa cama, no meio da madrugada, olhos bem abertos, e pensar: tá, Luana, é hora de falar sobre isso.

4a vez na Europa. Cidadã Européia e manjando tudo de trens, vôos lowcost, albergues, mapas e timetables. "Justo eu, que trabalho com isso" (com isso o que, gente?). E a frase que eu mais ouvi nesses 20 dias foi: "Poderia acontecer com qualquer um". É. Mas eu não queria que tivesse acontecido comigo.

Resumindo: Eu estava no fim da viagem e "não dava mais pra pegar avião". A mala vai ficando pesada, eu tinha um passe de trem: Pra quê gastar tanto dinheiro com um vôo, e daí que eu vou cruzar meia Europa - eu tenho um passe de trem.

Priorizei os trens Eurostar, claro, mais pensando no conforto do que em qualquer outra coisa. São bem mais rápidos, são bem mais confortáveis. E assim eu fui, Paris-Milão, Milão-Roma. Tudo certo, aqueles trens lindos, aqueles trens incríveis. Eu ia passar 24 horas viajando, mas e daí? Eu tinha um passe de trem.

E daí que eu estava indo até a Calábria e no último trem não havia tempo para Eurostar. Ou havia, sei lá. Eu poderia ter ido no dia seguinte, dormido uma noite em Roma, mas eu não quis. Tinha tantos motivos pra chegar logo, já dormiria vários dias em Roma na volta. Fui fominha, estava exausta, eram 4 meses fora de casa pelos mais diversos motivos e eu queria voltar pro Brasil. E por isso eu resolvi ir logo e entrei naquele maldito trem Expresso. Que não tinha couchette. E eu viajaria 9 horas sentada, num trem desconfortável, à noite.

Falando assim eu me sinto uma idiota, mas muita gente teria feito o mesmo. Você está ali, a mala, a estação. Você quer ir embora. Você mora há 32 anos numa cidade perigosa, é fim de viagem e você simplesmente acha que é mulher maravilha. Quantas vezes eu já tinha lido sobre isso? Várias, mas nunca dei a menor importância. Carioca tem essa mania de pensar que já viu tudo. E aí começa uma sucessão de erros que poderiam acontecer com qualquer um. Mas não comigo.

Eu fico pensando que o problema de quando você está aprendendo a dirigir não é quando você começa, mas justamente quando você adquire um pouquinho de confiança e pensa que já sabe - é aí que você bate. E aí que eu já estava na minha 4a viagem pelo Velho Mundo, tinha visto tanta coisa e, na boa, eu não sou uma idiota. Mas estava com muitas coisas de valor na mesma mochila. Que eu estava abraçada. Até a hora que eu dormi e a mochila não estava mais.

Eu não dou mole, eu sou bastante espertinha e eu não ostento nada. Eu nem tenho nada pra ostentar. Pois é, mas ali eu tinha. E perdi tudo o que eu tinha - ou tudo o que eu tinha de valor.

Acordar num trem no sul da Itália sozinha e se dar conta de que perdeu tudo é uma sensação que eu não recomendo a ninguém. Nem o meu pior inimigo merece experimentar tamanha solidão. E é por isso que eu escrevo, porque eu me dei conta de que ainda não tirei isso de mim. Porque acordo assustada. Porque não posso perder a fé nas pessoas. Porque eu fico virando e revirando cada minuto daquele dia tentando entender o que eu poderia ter feito de diferente. Eu poderia não ter entrado naquele trem. Só isso.

E de repente eu me vi sem passaporte e sem dinheiro nenhum num país que eu tento sentir que é meu, mas mal falo a língua. Nem no meu pior pesadelo eu conseguiria me ver assim. E nunca na minha vida eu me senti tão só. E não aguento mais me culpar por isso, ainda que eu saiba que eu não tive culpa, que eu dei azar de ter um ladrão no meu vagão. E eu sei quem foi e eu espero que seja quem eu acho que foi, porque eu quero que esse filho da puta morra. E eu não queria me sentir assim, queria deixar esse sentimento ir embora, mas eu ainda não consigo.

São coisas. E eu sou tão pouco apegada às coisas. Mas eram as minhas coisas. Era tudo o que eu tinha de valor. E eu sei que vou comprar tudo de volta. Mas eram as minhas coisas. Computador, câmera, ipod, passe de trem, dinheiro e passaporte. Quem viaja sem isso? Justo naquele dia eu esqueci de colocar a bolsinha do passaporte na cintura. E aí que estava num trem bizarro e não quis expôr a bolsinha ali. Poderia ter ido no banheiro colocar. Volta a história de quem está aprendendo a dirigir.

São coisas. Coisas vêm e coisas vão. Eu nunca pensei diferente. Mas estar sozinha num país estranho sem nenhum dinheiro pra comprar uma água faz você entender quem e o que você verdadeiramente tem. E parte de mim entende que no fundo foi importante passar por isso pra me reconectar comigo mesma, com os meus e com aquilo que verdadeiramente importa. Entender porque eu tenho um blog que se chama quaseindo e pensar até onde eu vou nessa minha vontade de entender quem eu sou. E acho que eu descobri. Então, o que são coisas? Eu perdi as minhas coisas, meu ex-namorado perdeu o pai, pessoas queridas perdem o filho. O que são coisas? São nada. Agora eu consigo ver que nada disso importa pra mim.

E quando eu mais precisei eu pude entender quem eu de fato tinha. Entender qual era a minha retaguarda. Eu nunca me senti tão sozinha, mas em nenhum momento eu me senti desamparada. Nos primeiros 30 segundos em que eu tive acesso à internet, tudo se resolveu. E uso esse post pra agradecer à Michelle, essa irmã que a vida me deu. Com ela a vida ficou mais divertida e, depois dessa, mais segura.

Além disso, no momento em que eu mais precisei, eu conheci pessoas incríveis, que me deram o colo e me deram a mão. "As grandes almas sempre se encontram" ou a vida é a arte do encontro, certo? Eu nunca poderei agradecer o suficiente aos dois. Pessoas que te conhecem quando você não tem nada pra oferecer além de toda a sua tristeza e toda a sua desilusão. Toda a ajuda que eu tive - emocional, principalmente, porque o $ pouco importa - foi fundamental pra eu não enlouquecer.

Eu não contei isso antes porque não dava pra mim. Mas a verdade é que minha família e meus amigos foram a minha retaguarda emocional, que é o que importa. Segurar pra não cair. Porque o resto, eu nunca pensei que não ia resolver. Volto a dizer: eu me senti sozinha, mas nunca me senti desamparada. Entendi o que eu tinha, entendi o que eu não tinha e entendi o que eu ainda não tinha, mas precisaria ter. Basta colocar a cabeça na linha reta, respirar fundo e fazer o que tem que ser feito. Em poucas horas, graças ao Western Union, ao meu pai e à minha Conhada, eu estava com $ na mão.

O passaporte foi pior. O consulado brasileiro em Roma é um lixo. Um telefone que ninguém atende, um email que ninguém responde. Eu estava sozinha, sem passaporte e sem $ nenhum. No sul da Itália. Sou uma cidadã de bem, pago os meus impostos em dia pra sustentar a farra do boi que é a vida consular fora do Brasil. E até hoje não responderam meu email.

Ainda fico um pouco triste porque minha viagem foi tão linda. Encontrei e conheci pessoas incríveis. Comi, rezei e amei. Não aprendi a esquiar, mas bebi vinhos tão bons. E ficou essa coisa pesada e agressiva no final que vai fazer essa viagem sempre ser "a viagem em que eu perdi todas as minhas coisas". Mas fica a experiência, né? E é isso aí: São coisas. Coisas vem e coisas vão. Nada disso importa pra mim, ainda que fossem as minhas coisas (e as minhas músicas, e as minhas fotos)... Hoje vejo que precisei chegar até aqui pra entender isso.

E vai passar.
A tristeza e as coisas.
Nunca a minha retaguarda.
E nunca a minha gratidão.

Por isso, meninas, cuidado. Sim, meninas, porque com a gente é sempre pior. Não relaxem. E não entrem nesse trem.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Côncavo e convexo

Eu morro de medo de que o mundo acabe.

Pensei em mil formas de te contar isso de um jeito mais bonito, mas a verdade é essa: Eu entro em pânico cada vez que eu penso que podemos estar chegando ao fim.

Leio tudo sobre os Maias e seu fatídico 21 de dezembro, Nostradamus, bomba atômica e relógio do apocalipse. Sinto uma mistura de medo e excitação ao pensar que cada uma daquelas vezes poderia ter sido a última e que toda essa nossa insegurança não passa mesmo de uma grande bobagem. Me dá vontade de sair correndo e te arrancar um beijo no meio da chuva. Sorrir de um jeito que eu pareça linda e suspirar tudo isso que você guarda no peito. Não dormir e acordar ao seu lado, daquele jeito que a gente combinou. E esperar o fim do mundo vendo enroscar as nossas meias, tomando Danete e [te] fazendo cafuné.

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E aí me deparei com essa fofíssima matéria aqui que me deixou pensando. São essas as 5 coisas que as pessoas mais se arrependem antes de morrer:

1. Não de ter tido a coragem de viver uma vida fiel a si mesmo em vez de atender as expectativas dos outros.

2. Ter trabalhado demais.

3. Não ter tido a coragem de expressar os sentimentos.

4. Ter passado menos tempo do que deveria com os amigos.

5. Não ter permitido a si mesmo ser mais feliz.

Soco no estômago, meu bem.

Depois dessa, só me resta pensar que o mais sensato a fazer seria a gente ser feliz pra sempre a partir de amanhã, antes que o amanhã acabe.

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Faltam 8 dias pra amanhã.