domingo, 26 de fevereiro de 2012

Você passa eu acho graça



E, do outro lado da rua, lá estava ele. Havia muita fumaça e muita purpurina no ar, mas eu reconheceria todo aquele medo até de olhos vendados no meio de uma chuva de granizo, afinal.

Parecia triste. Cansado. Como havia envelhecido - pensei. E de repente eu senti de volta nos ombros cada um dos longos 9 anos que nos separavam daquele dia tão bonito, nós dois aplaudindo de mãos dadas o pôr de sol à beira do Guaíba. Parece que foi anteontem: O mesmo olhar distante, o mesmo sorriso tímido, o mesmo medo de se envolver. E agora todo aquele cansaço.

Quanta ironia. Tantos anos depois - cinco, seis? - e lá estávamos nós outra vez naquela mesma esquina, embriagados de confete, serpentina e daquele bendito líquido azul. Separados pelo mesmo Cacique. Aquele que foi um dia tão triste e hoje eu estava tão feliz. Porque eu nunca me esqueceria que foi bem naquela esquina que eu resolvi tirar você de mim. Quanto tempo perdido, quanto tempo passou. Mas hoje, no encontro de Rio Branco com Rosário, só me restava assinar o óbito desse amor tão bonito, desse amor tão maldito.

Não deixei ele me ver. A partida do amor que nunca foi seria suficiente pra deixar aquela tristeza ir embora do meu peito. Porque de repente tudo fez sentido pra mim. Então Isabella virou todo aquele sentimento num gole só e resolveu ser de fato feliz, agora nos braços do seu [novo] amor. E sorriu ao se dar conta de que queria ficar naqueles novos braços por muitos - e muitos e muitos - outros carnavais. Que era dali que vinha aquele sorriso, aquele calor, aquele suspiro e, principalmente, que era dali que vinha toda aquela paz, o tal amor tranquilo que sua amiga sempre falou. Quem diria que era por ele que hoje ela deixaria a terça-feira ir embora para todo o sempre de dentro de mim.

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E, pensando na música que fizeram pr'aquele outro amor de verdade, ela sorriu.

"É você que tem
o colo que eu
deito e descanso
E é tão teu
Meu coração aflito e manso"

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- Essa sua fantasia é de Alice?

- Hã?

- Essa sua fantasia é de Alice?

- Como assim, meu querido? Pirou? É de Branca-de-neve, né?

- Ué, mas então cadê os 7 anões?

- Tão em casa, dormindo, que amanhã cedo tem bloco. Hoje eu vim com o queijo. Alí, ó, tocando no samba.

- Ué. Tá traindo os 7 anões com um queijo? Achei que você era Branca de Neve e não a Magali.

- Sabe como é, tem muita Minnie por aí, preciso ficar de olho.

- Larga ele e vem embora comigo.

- Ah, mas não vou mesmo. Eu nunca estive tão feliz :)

- Tá feliz mesmo? Vai até dispensar os 7 anões? Tô achando você uma Branca de Neve meio fajuta. Aposto que nem sabe o nome de todos eles.

- Claro que eu sei (e conta nos dedos): Mestre, Atchim, Dunga, Zangado, Soneca, Dengoso... Peraí. Mestre, Atchim, Dunga, Zangado, Soneca, Dengoso. Mestre, Atchim, Dunga, Zangado, Soneca, Dengoso. Porra. Tô esquecendo de um anão. Mestre, Atchim, Dunga, Zangado, Soneca, Dengoso. Gente, como pode, tô esquecendo de um anão.

- (risos)

- Pára de me zuar, porra. Mestre, Atchim, Dunga, Zangado, Soneca, Dengoso. Tá, desisto, vai. Qual que tá faltando?

- O "Feliz".

- [...]

- Minha filha, desculpa, mas acho que você tá precisando entrar pra análise.


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baseado em fatos reais.

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Aceita, gente. O carnaval acabou. Ou você aprende a ser feliz no dia a dia ou, como diria a plaquinha, leve o carnaval pra sua vida real.

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