sábado, 3 de março de 2012

Tão bem


Lavou o rosto com água muito fria e riu ao se lembrar que nunca soubera se enxugar bem. Pequenas piadas internas, joguinhos que ela curtia brincar com ela mesma.

Esfregou com força os olhos de cigana dissimulada e fitou a cara cansada no espelho. Eram dez horas da noite e em quinze dias ela faria trinta e três.

Sorriu e se achou bonita por trás de todo aquele cansaço. O Retorno de Saturno lhe pesara tanto que no fundo, no fundo, ela estava bem melhor agora do que aos vinte e sete. A maturidade tinha trazido a calma. Hoje ela se sentia mais leve, mais bonita, mais feliz.

O que incomodava era aquele "Senhora". Ela não era uma Senhora. Não tinha cabelo de Senhora, não tinha cara de Senhora. Mas tinham dado pra isso agora: Bom dia, Senhora, obrigada, Senhora. Ela corrigia perguntando o porquê de toda aquela reverência e o interlocutor, constrangido, explicava ser somente uma questão de respeito.

Que me desrespeitem, pois. Ignorem os cabelos brancos da minha franja.

Eram dez horas da noite e em quinze dias ela teria trinta e três.

Que bom.

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"E ela me faz tão bem
E ela me faz tão bem
Que eu também quero fazer isso por ela".


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