domingo, 17 de junho de 2012

A dois passos do paraíso - o post mais longo do mundo


Sancho, "a praia mais bonita do Brasil", justificando o título

Demorei 33 anos pra chegar a Fernando de Noronha. Talvez por falta de dinheiro, planejamento ou objetivo, sempre adiei aquele maior dos meus sonhos "no Brasil".

Noronha é caro. Caro. Tudo é caro. Quase tudo chega de barco, a água é escassa, é preciso pagar a taxa do IBAMA, as pousadas são caríssimas, voar pra lá é mais caro do que ir à Europa. E, ainda assim, vale cada centavo.

Fomos com milhas, então, pra começarem a me odiar, voei pra Noronha por 35 reais por pessoa. Ok, raspei as milhas que tinha, mas, sinceramente, não conseguiria imaginar uma melhor forma de fazer isso. Consegui a ida e a volta por 10 mil milhas cada e acordei meu namorado com um presente de 12 de junho antecipado: amor, vamos pra Noronha? Eram 6 e meia da manhã e ele certamente ainda acha que eu sou maluca.

Não tínhamos muitos dias, afinal, a gente trabalha e não era, nem de longe, a melhor época pra tirar férias. Roubamos uns dias de um feriado, combinamos uma ausência de 3 dias no trabalho e lá fomos nós: Teríamos 4 dias inteiros em Fernando de Noronha. É pouco? É. Mas eu fiz tudo que eu queria muito e ainda mantive de pé a minha meta de não esgotar os lugares (e a mim mesma) numa única viagem: Eu tenho motivos pra voltar.

Ficamos numa hospedagem domiciliar. É um misto de pousada com albergue com casa da pessoa. Basicamente tínhamos um quarto com banheiro, frigobar e ar numa casinha fofa onde tínhamos a liberdade do albergue (pra cozinhar, se quiséssemos) com a delicadeza de estar na casa de alguém (e poder tomar banho na incrível ducha no meio do quintal, e poder conversar com os moradores da ilha pra entender como eles vivem, e viver uma vida real). Ficamos na Casa da Mirtes, na Floresta Velha, um dos melhores lugares pra ficar em Noronha porque é perto de tudo e não é no meio do burburinho. Meu plano era acordar cedo pra ir às praias e eu ia ficar péssima se tivesse uma barulheira na minha cabeça. A Mirtes é uma fofa, comadre de Fernanda Lima (vai entender) e a casa dela é um charme. Vale o contato: (81) 3619 1792.

Eu diria que existem 3 Noronhas. Uma é a verdadeira, das pessoas que moram lá, que vivem aquele dia dia com o bônus de ter as praias mais bonitas do Brasil e o ônus de viverem isoladas. De dependerem de barco pras coisas chegarem. De pagarem preços extorsivos por uma água e, ainda assim, serem as pessoas mais gente boa do mundo, sempre dispostas a dar uma boa dica, ainda que através de um pensamento um pouco confuso.


Reduto de Santana: Ruínas próximas à Vila dos Remédios.


A outra é a Noronha que conhecemos: Aproveitando tudo o que queríamos e gastando muito mais do que deveríamos, afinal, estávamos de férias. Mas conhecendo a população local, pegando dica, pegando carona, pegando ônibus. Comendo o que a gente queria comer, mas não necessariamente o que a gente TINHA QUE comer. Aliás, deixemos esse conceito pra lá: A viagem é sua e ninguém TEM QUE nada. Queríamos comer um bom peixe, comemos no Point da Cacimba, na Cacimba do Padre. Peixe muito fresco, um purê de aipim divino e uma cerveja geladíssima pra acompanhar. Queríamos comer Albacora, que é um peixe que meio que só tem lá (tem em outros lugares, mas é difícil). Comemos na forma de sushi no restaurante da pousada Vila del Mar. Delicioso e honesto, mas é preciso passar lá a tarde pra avisar o que você quer comer e marcar horário, porque o dono é o gerente é o garçon é o sushiman. Noronha made in Portugal. Mas delícia. E queríamos comer uma pizza que me havia sido recomendada pela amiguinha querida, a pizza da Na Moita. Uma delícia, não deixa nada a desejar a nenhuma boa pizza que já comi e custou R$ 46,00 pra duas pessoas (mais as cervejas, uns 70 reais a conta, o que, pra Noronha, é bem OK). A pizzaria é super romântica, no meio de um bosque no bairro do Trinta, com mesinhas à luz de vela. Dois defeitos: Não aceita cartão (justo) e não tem banheiro (inadmissível).

A outra é a Noronha dos Paulistas. Sim, eles invadiram Noronha. Ainda que tenhamos visto mais turistas nordestinos do que qualquer outra coisa, OS PAULISTAS chamam atenção. E não quero soar preconceituosa com isso. Eu tenho vários amigos de São Paulo e adoro tomar um bom chopp gelado e ser bem tratada pelos garçons. Mas os paulistas que invadiram Noronha não são, digamos assim, do tipo mais legal. Primeiro: Vi poucos paulistas na praia, mergulhando ou tomando um sol. Em Noronha. Estranho? Eu diria "bizarro". A galera acorda tarde porque saiu na noite anterior (e a noite em Noronha começa tarde). Pega o buggy, pára numa das praias mais lindas do mundo e... SENTA NO RESTAURANTE. Desculpe, mas... Não. Não dá pra entender.

Ok, cada um se diverte à sua maneira. Mas eu não posso aceitar que uma pessoa vá àquele lugar tão lindo só pra consumir. O mais lindo de Noronha é... Noronha. Passe o tempo inteiro dentro d'agua, né? Ou não: Não entre na água, deixe todos os peixinhos para mim (o post vai soar mal. Saco).

Minha primeira dica fundamental: Leve uma BOA máscara de mergulho, snorkel e pé de pato. É possível alugar as máscaras lá, mas nadadeira eu não vi. Se você tiver a sua, vai aproveitar muito mais, por muito mais tempo. Se joga e vai ver os peixinhos, as arraias, moréias, tartarugas (amor) e os tubarões. Sim, tubarões. Medo.

"Ai, meu Deus, a máscara dela já embaçou DE NOVO"

Desde o início eu deixei bem claro que EU NÃO QUERIA VER TUBARÃO. Tubarão pra mim é aquele bicho DO MAL que mata as pessoas no filme do Spielberg. Pois é. Só que não.

Noronha tem toda uma proposta de romper com essa imagem. Primeiro: Nunca houve um ataque de tubarão em Noronha. Tem muito peixe lá pra eles comerem antes de começarem a fazer dodói na gente. Segundo: Veja esse artigo aqui e descubra que é mais fácil morrer atacado por um hipopótamo do que por um tubarão. Terceiro: Cara, o tubarão tá lá, é a casa dele e ele a principio não faz nada. Se você ficar com medo, vai perder boa parte da viagem. Deixa o maluco lá, fica na tua e reza (técnica desenvolvida por mimmesma.com ao avistar o terceiro tubarão).

Vamos no dia-a-dia senão ninguém aguenta ler até o final:

1º dia: Chegamos às 4 da tarde. Tente sentar no lado esquerdo do avião na ida e no direito na volta, mas a vista lindíssima que você tem dura 2 segundos e não compensa o bate-boca dentro da aeronave com o povo querendo mudar de lugar. Amigos, vamos lá: Se todo mundo sentar do lado esquerdo, o avião cai, ok? Da próxima vez, marca o assento antes, fica a dica.

Não pagamos a taxa do IBAMA pela internet e não pegamos muita fila. O táxi aeroporto-casa custa 17 reais.

Deixamos as malas, demos oi, demos tchau e corremos pra praia do Cachorro, do Meio e da Conceição, que ficam perto da Vila dos Remédios (o centrinho) pra ver o pôr do sol. Mergulhamos, vi minha primeira tartaruga e comecei a entender o que estava por vir.

Amiga <3

Pôr do Sol no Duda Rei, na Conceição: e os 10 reais mais bem gastos numa cerveja em todos os tempos

Pôr do sol na Praia da Conceição, pra tatuar na retina.

Vínhamos de um vôo louco de 12 horas (obrigada, Gol), então comemos qualquer coisa e capotamos.


2º dia: Acordamos cedo, 7 e meia (6 e meia "no Brasil" rs) tamanha era a ansiedade pra "Ver Noronha". Resolvi começar pelo que eu mais queria ver, então fui direto na Praia do Sancho (a da foto lá de cima) que, desde o início da vida, eu sempre soube que seria minha praia preferida DA VIDA. Pegamos uma carona até a entrada do Sancho (tem placa e tem ônibus que passa de meia em meia hora), caminhamos uma meia hora e pronto. A vista é estonteante, a descida é medonha e a subida é de testar a asma de qualquer serumano. Mas é, sem dúvida, a praia mais bonita do Brasil.

Vejam bem a cor da água

A bizarra descida pra chegar à praia (e sair dela). Um horror, mas vale.

Saímos de lá e fomos à Baía dos Porcos, que é a praia imediatamente ao lado mas, pelo fato de a trilha estar fechada, te obriga a fazer um caminho enorme e desnecessário até lá. Daria pra ir nadando, mas e as nossas coisas? Um saco.

(Aliás, um à parte: a princípio não tem assalto em Noronha. Você pode mergulhar tranquilo e deixar as coisas na areia, devidamente guardadas na mochila. A principio. Eu fico meio tensa, mas... )

A Baía dos Porcos é tão linda como o Sancho (eu prefiro o sancho). Tem menos peixe, mas tem a vantagem de ser O CARTÃO POSTAL de Noronha. Imperdível, imperdível.

Demos muita sorte por termos chegado no dia certo. O mar de dentro (que tem as praias, na minha opinião, mais bonitas e sem dúvida melhores para o mergulho) estava uma piscina ... Ou um aquário, talvez. 4 dias depois entrou o maldito swell que subiu o mar e revirou tudo. Mas aí já estávamos indo embora. Coitado de quem chegou nesse dia. Fica então a nova dica de Noronha: Tente não ficar poucos dias, porque se você chegar num dia que o mar estiver revolto, fudeu. A menos que você seja um surfista e esteja me achando uma maluca.




Comemos por lá mesmo, na praia da Cacimba do Padre (que é depois desse morrinho). Peixe delicioso no Point da Cacimba por $55 para 2 se fartarem. Tinha umas opções mais caras, mas queríamos um peixinho frito e honesto. Estava divino. Cerveja (skol latinha) a $5.


Na verdade, o Point da Cacimba é o restaurante ao lado, mas não fiz fotos de lá.
Daí você immagina que o peixe estiva bom.


Fomos andando de praia em praia (amei a Praia do Bode, que ninguém dá muito valor mas é um charme) em direção ao Mirante do Boldró, onde rola um pôr do sol bem bonito, mas cheio demais pra mim.



3º dia: Resolvemos passar o dia nas praias do mar de fora, que são as praias voltadas pra África. Começamos pela Baía do Sueste, onde há mais tartarugas e mais tubarões. O aluguel do colete (5 reais) é obrigatório pras pessoas não mergulharem e pegarem nas tartarugas (o que é meio tentador, viu?). Estávamos felizes e contentes quando de repente eu vi um TROÇO passando voado do meu ladinho. 

- Cara, acho que vi um tubarão!!!!!!!!

- Putz, não acredito que eu perdi!

(Luana em pânico)

Continuamos nadando quando, de repente, lá estava ele. Mais de dois metros. Segurei a mão do meu namorado-instrutor-salva-vidas e, na boa? Você está a 300 metros da areia. Reza. E aproveita. Confesso que eu rezei bem mais do que aproveitei, porque esse negócio de tubarão REALMENTE não é pra mim. Me restava olhar pro céu e pensar na fragilidade da vida.

- Amor, você tá maluca? Tem um tubarão embaixo de você e você olha PRO CÉU? Se você tem medo, mais um motivo pra olhar pra ele, né? Tá maluca?

- Ué, você não disse que ele era bonzinho? Então. O que os olhos não vêem, o coração não sente.

Saímos de lá e fomos à Praia do Leão, uma das mais bonitas, na minha opinião. Aquele mar AZUL piscina e uma coisa bem mais roots. Não tinha ninguém, é você e Deus. Incrível, indescritível. Não foi minha preferida porque o mar é bem mais agitado e eu gosto de piscininha pra ver peixinho. Mas é muito bonita a praia, pelamordedeus.




De lá pegamos a BR363 (na verdade é a grande "rua" que liga todos os pontos de Noronha, tem 7km e é por onde o ônibus passa a cada meia hora) e fomos ao porto ver o Museu dos Tubarões. O museu é legal pra esclarecer as coisas e o lugar é bonito DEMAIS. O famoso e imperdível bolinho de Tubalhau, sinceramente, tem gosto de batata. OK, provei, mas não achei nada demais. Nesse dia não vimos o pôr do sol porque fomos fechar o mergulho do dia seguinte. Jantamos na Na Moita e apagamos cedo, cedo. Noronha faz isso.

Âncoras no Museu dos Tubarões



4º dia: Como mergulharíamos à tarde, resolvemos fazer um dia light, só indo à Praia do Cachorro de manhã.

O mergulho: Demorei pra mergulhar. Quer dizer, sempre fui um peixinho, estou sempre dentro d'agua, sempre brincando com snorkel e máscara. Mas a questão é que perfurei 2 vezes o tímpano e aí tinha aquela dúvida: "Quem já perfurou o tímpano pode mergulhar?". Nunca me responderam direito isso. Otorrinos e mergulhadores meio que não se responsabilizavam pelo meu mergulho, mas também não diziam: VOCÊ NÃO. E meu sonho sempre foi mergulhar em Noronha, então resolvi que se eu tivesse que sentir a maior dor do mundo, seria lá.

Fechamos com a Noronha Divers, que é uma dar 3 operadoras de mergulho que existem lá. A Atlantis, mais cara, parece ter uma estrutura melhor, mas achei meio impessoal, talvez. E, como senti confiança na Noronha Divers, não vi motivo pra fechar com outra. O mergulho era $300, estava na promoção por $250 (em dinheiro, no cartão era mais) e, como tínhamos a roupa de mergulho, pagamos $230. Com direito a ver arraias, moréia, todos os peixes do mundo, a maior lagosta da história, entrar em caverna e ver um tubarão tão perto, mas tão perto, e tão grande, mas tão grande, que se eu não morresse do ouvido, morria do coração.


 
O dia mais bonito do mundo


O dia acabou e eu não precisava de mais nada (além do Sushi incrível só com peixes de lá que comemos). Aliás, eu não precisava de mais Noronha. Ou precisava, porque teria sido legal passar uma semana descansando e aproveitando a ilha aos pouquinhos. Não pude ir ao Atalaia, que era algo que eu queria fazer, mas não estava me matando pra fazer. E a maré não deixou, não tinha horário no dia seguinte de manhã (voltaríamos à tarde). Ficou então pra próxima, junto com o Planasub que eu queria fazer, mas não fiz. Achei que era demais pra um ouvido tão delicado e que havia sido testado já. Deixei os dois pra próxima.

5º dia: Acaba sendo um dia meio corrido, porque você vai embora. Resolvemos voltar ao Sancho pra dar um tchau, mas o mar virou loucamente e a minha piscininha virou um Tsunami (na minha opinião dramática de quem tem medo e respeito pelo mar). Ficamos lá um pouco, fomos até o Mirante do Dois Irmãos (que estava fechado, mas sabe como é carioca, né? Tem que justificar a fama de abusado).




E foi assim que demos tchau à ilha que nunca mais, nunca mais, nunca mais sairá de dentro de mim.


Noronha e essa nossa mania de viver com o sorriso colado no rosto



8 comentários:

Pede que eu faço... disse...

Amei!!! Que delícia.

Vanessa disse...

Luana, você é a namorada ideal!

Luisa disse...

ai luuuuuuuuuuuuu! que vontade que deu disso!!!!

aline nayara disse...

Olá Luana, tudo bem?
Encontrei seu blog procurando informações sobre a pousada da mirtes e amei todas as suas dicas. Na Mirtes não tem café da manhã incluso, onde vocês tomaram???
Bjs

aline nayara disse...

Olá Luana, tudo bem?
Encontrei seu blog procurando informações sobre a pousada da mirtes e amei todas as suas dicas. Na Mirtes não tem café da manhã incluso, onde vocês tomaram???
Bjs

Mônica Ventura disse...

O melhor post de todos!!!!!
Amei cada palavra, me senti lá!!!!

outubro estarei por lá e levarei comigo todos as suas dicas.

Muito obrigada! :)

Solange Bispo dos Santos disse...

Seu texto é ótimo! Parabéns!

Neninha disse...

Luana, meu marido e eu pretendemos ir a Noronha em janeiro e ficarmos na casa de Mirtes. Você não tem fotos da casa?