sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Noitofobia


É, Doutor.

Descobri o meu problema: Eu não sei mais fazer noitada.

Foi duro chegar a essa conclusão e eu demorei pra entender. Achei que era cansaço, pensei que tinha depressão. Ficava andando pelos cantos da festa fingindo acender o cigarro que há anos não fumo mais. Foi difícil de entender. Mas é pra isso que eu te pago, né? Pra entender as coisas que a gente não entende.

Acordo com minhas amigas me chamando pra sair e penso: Mas pra onde? Mas pra que? Quem vai? Quem toca? Como a gente vai? Como a gente volta? Uma overdose de problemas e eu só consigo me achar uma chata. E as minhas amigas pensam que virei evangélica. Ou maratonista. Eu digo que amanhã corro bem cedo eles acham que eu falo esperanto. Ou faço tricô, ou qualquer uma daquelas coisas sem sentido que a gente só faz pra convencer a gente mesmo - como preciso fosse ter razão pra gente ser quem a gente é. Mas a verdade é que a trilogia cerveja quente + banheiro sujo + táxi cheio só consegue me arremessar de volta à cama. E eu me encontro em tão boa companhia, sabe, Doutor, que por que diabos eu sairia daqui agora?

É isso. Acho que não sei mais. E começo a pensar que nunca soube. Que sempre estive muito mais pro Pequenas Empresas, Grandes Negócios, do que pro Supercine ou Tela Quente. Que eu nunca achei tão bom. Lembro menina de acordar bem cedo esperando meu avô pra ver o Globo Rural. Era uma hora só nossa. Eu e meu avô. Eu e meu amor. E é por isso que mudei. Ou nunca mudei. Acho que sempre fui assim. Sempre fui de dormir com o galo e acordar com as galinhas. Eu e meu complexo de Cinderella. Eu acho que acabo à meia-noite. Eu sofro de Noitofobia.

Eu me busco nas manhãs pra estar perto dele. Eu e ele.

Tá dormindo, Doutor?



quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Ela tá voltando


Tudo começou quando a gente tinha uns 3 anos. Eu lembro dela desde o início: A minha turma juntou com a dela e me pediram pra escolher uma coleguinha da turma nova pra dividir o cavalete. Ela sorriu pra mim e com ela eu fui.

Desde esse dia foi assim, ela sorrindo, eu indo e a gente dividindo tudo o que se pode haver. Cavaletes, amores, pequenas e grandes lições, todas as aulas matadas, as muitas das nossas inseguranças e os poucos dos nossos medos. Cada um dos suspiros. Desde esse dia foi assim.

Só que quando eu tinha uns 19 anos ela foi embora pra sempre. "Florianópolis é logo ali", diria ela. Era nada. Da noite pro dia a minha melhor amiga foi morar numa Servidão no fim do mundo. Um fim do mundo lindíssimo, mas a 1152 km de estar comigo no meu dia-a-dia. Era o melhor pra ela e eu conseguia ficar feliz, mas as fofocas ficariam mais difíceis e mais caras. Foi difícil, mas eu nunca, por nenhum momento nesses anos todos, senti que ela não estava ali comigo. Fomos gênias na arte de se fazer presente e continuamos a dividir: Risos e lágrimas, o bendito término, o primeiro carro, o último amor. 

Então combinamos que ia ser sempre assim. E sempre assim a gente riu de cada vez que eu pensei que aquele último era meu verdadeiro amor (#julifeelings). E sempre assim a gente riu de cada amnésia alcoólica que só ela era capaz de ter. E sempre assim a gente foi indo, se abraçando nos feriados, ela reclamando que eu nunca ia, eu não aguentando mais espera-la chegar. Ela não pode estar comigo quando meu avô se foi, eu não estava com ela na hora que o pai dela morreu. Foi triste mas triste já seria, e nunca estivemos tão juntas. Mais do que primas, mais do que irmãs. A gente tinha se escolhido nessa vida e a nossa vida então era assim.

Até que.

Até que ela teve a Valentina e tudo pra sempre mudou. A gente combinou que ia ser mãe junta, ela furou a fila e de repente tudo bem. Porque quando a Valentina nasceu as coisas passaram a ter um sentido maior ou não ter importância alguma. A vida da minha amiga foi iluminada por uma princesa linda, a mais bonita que há. E de rebarba a minha também. Porque nada mais importaria depois dali. Nascia uma menina linda e esperta que precisava da minha amiga pra ensinar as coisas da vida. 

Talvez ali ela me mostrasse então que eu já dispunha das ferramentas que precisava para viver. Eu era uma mulher feita. Minha melhor amiga tinha entrado na vida adulta e ficaria claro ali pra mim que eu não poderia ser pra sempre a Wendy e espirrar pirlimpimpim. Crescer era urgente e crescer era tão bom. E era importante criar raízes, estabelecer vínculos e, pela primeira vez na vida, parar de esperar pela felicidade e passar a sorrir de uma vez. Enfeitar o jardim. Foi isso. Sem querer, ela me mostrou que era preciso enfeitar o jardim.

:)

Só que há duas semanas a melhor notícia do mundo chegou. Depois de quinze anos fora, minha melhor amiga vai ficar pra sempre pertinho de mim. Só que só agora a ficha caiu. De tanto eu insistir, de tanto eu querer, de tanto eu apoiar, ela tomou a decisão mais corajosa que eu já vi e tá voltando pra casa.

Eu não sabia se ria ou chorava. A gente parou no tempo há 15 anos atrás. Ela namorava um boçal e eu queria namorar um igual. Tudo mudou só que agora eu quero ligar pra ela as sete da manhã pra saber onde é que a gente vai matar aula hoje. E não consigo parar que querer passear no Rio Sul pra "ver as modas". Não consigo parar de rir. E quero tudo. E não preciso de mais nada. E é assim que vai ser. Até que a morte nos separe. Até que.





Leva o chinelo pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar
Porque eu tô voltando



sábado, 25 de agosto de 2012

Reflexos


Ando reflexiva e, talvez por isso, silenciosa.

Não tem feito dias ruins, e nem poderiam, com o céu de brigadeiro que tem brindado a Cidade Maravilhosa nesses frescos dias de inverno.

Que mania chata essa sua de pensar que o silêncio tem que ser pesado. Eu tô aqui fazendo samba e amor até bem mais tarde e em silêncio. E em silêncio faz um ano que a gente sorri no mesmo caminho. Soft e em silêncio, porque já não era mais preciso cantar a felicidade aos quatro cantos.

Passou o verão, o outono e tem sido delicioso esse longo inverno. Primavera passada a gente mal se viu. Não vejo a hora de setembro chegar logo pra você colocar aquela tão sonhada margarida no meu cabelo.

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E, nessa reflexão silenciosa, chego a duas conclusões definitivas nessa vida.

A primeira é que você nunca vai conseguir ficar só com a parte boa, my dear. Ou você encara o pacote todo ou fica aí nesse seu casulo fingindo ser de fato feliz.

A segunda é que o amor existe há milhares de anos e é muita pretensão do Facebook pensar que tem alguma coisa a ver com isso.