quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Ela tá voltando


Tudo começou quando a gente tinha uns 3 anos. Eu lembro dela desde o início: A minha turma juntou com a dela e me pediram pra escolher uma coleguinha da turma nova pra dividir o cavalete. Ela sorriu pra mim e com ela eu fui.

Desde esse dia foi assim, ela sorrindo, eu indo e a gente dividindo tudo o que se pode haver. Cavaletes, amores, pequenas e grandes lições, todas as aulas matadas, as muitas das nossas inseguranças e os poucos dos nossos medos. Cada um dos suspiros. Desde esse dia foi assim.

Só que quando eu tinha uns 19 anos ela foi embora pra sempre. "Florianópolis é logo ali", diria ela. Era nada. Da noite pro dia a minha melhor amiga foi morar numa Servidão no fim do mundo. Um fim do mundo lindíssimo, mas a 1152 km de estar comigo no meu dia-a-dia. Era o melhor pra ela e eu conseguia ficar feliz, mas as fofocas ficariam mais difíceis e mais caras. Foi difícil, mas eu nunca, por nenhum momento nesses anos todos, senti que ela não estava ali comigo. Fomos gênias na arte de se fazer presente e continuamos a dividir: Risos e lágrimas, o bendito término, o primeiro carro, o último amor. 

Então combinamos que ia ser sempre assim. E sempre assim a gente riu de cada vez que eu pensei que aquele último era meu verdadeiro amor (#julifeelings). E sempre assim a gente riu de cada amnésia alcoólica que só ela era capaz de ter. E sempre assim a gente foi indo, se abraçando nos feriados, ela reclamando que eu nunca ia, eu não aguentando mais espera-la chegar. Ela não pode estar comigo quando meu avô se foi, eu não estava com ela na hora que o pai dela morreu. Foi triste mas triste já seria, e nunca estivemos tão juntas. Mais do que primas, mais do que irmãs. A gente tinha se escolhido nessa vida e a nossa vida então era assim.

Até que.

Até que ela teve a Valentina e tudo pra sempre mudou. A gente combinou que ia ser mãe junta, ela furou a fila e de repente tudo bem. Porque quando a Valentina nasceu as coisas passaram a ter um sentido maior ou não ter importância alguma. A vida da minha amiga foi iluminada por uma princesa linda, a mais bonita que há. E de rebarba a minha também. Porque nada mais importaria depois dali. Nascia uma menina linda e esperta que precisava da minha amiga pra ensinar as coisas da vida. 

Talvez ali ela me mostrasse então que eu já dispunha das ferramentas que precisava para viver. Eu era uma mulher feita. Minha melhor amiga tinha entrado na vida adulta e ficaria claro ali pra mim que eu não poderia ser pra sempre a Wendy e espirrar pirlimpimpim. Crescer era urgente e crescer era tão bom. E era importante criar raízes, estabelecer vínculos e, pela primeira vez na vida, parar de esperar pela felicidade e passar a sorrir de uma vez. Enfeitar o jardim. Foi isso. Sem querer, ela me mostrou que era preciso enfeitar o jardim.

:)

Só que há duas semanas a melhor notícia do mundo chegou. Depois de quinze anos fora, minha melhor amiga vai ficar pra sempre pertinho de mim. Só que só agora a ficha caiu. De tanto eu insistir, de tanto eu querer, de tanto eu apoiar, ela tomou a decisão mais corajosa que eu já vi e tá voltando pra casa.

Eu não sabia se ria ou chorava. A gente parou no tempo há 15 anos atrás. Ela namorava um boçal e eu queria namorar um igual. Tudo mudou só que agora eu quero ligar pra ela as sete da manhã pra saber onde é que a gente vai matar aula hoje. E não consigo parar que querer passear no Rio Sul pra "ver as modas". Não consigo parar de rir. E quero tudo. E não preciso de mais nada. E é assim que vai ser. Até que a morte nos separe. Até que.





Leva o chinelo pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar
Porque eu tô voltando



Um comentário:

mãe marilisse disse...

lindo filha! você me faz chorar... Beijo pras duas amadas da mãe eterna. Marilisse