segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Obrigada


E mais um ano se passou. Sou só eu ou existe essa impressão de que estamos sendo atropelados pelas horas?

2013. O primeiro ano depois que o mundo ia acabar.

O pânico geral foi porque ninguém sabia o que fazer. Demos por certo que ninguém mais abriria os olhos depois daquele 21 de dezembro de 2012 e, já que o mundo não acabou, ninguém mais sabia o que deveria vestir.

Pois eu, pra variar contrariando todo mundo, acho que 2013 foi um ano lindo. Em 2013 eu amei, chorei, sorri, emagreci, engordei, malhei, parei, questionei, me reinventei, comecei o melhor trabalho da minha vida e me transformei na melhor mulher, tia, filha, irmã e amiga que eu podia ser em 2013. E o mais importante, pra mim, foi abrir os olhos praquilo que me era mais caro e sagrado: A história que se desenha e todo esse amor por termos chegado aqui aqui.

Que em 2014 tenhamos a coragem de nos aproximarmos cada vez mais daqueles que amamos para, assim, continuarmos a honrar o nosso caminho.



Por isso, e por tudo isso, obrigada.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Ai de ti, Clarice.


Pobre de ti, que não sabe soma(tiza)r nada. 


Graças a deus minhas tristezas tanto me machucam a alma.

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Ai de Clarice Lispector se fizesse análise. Porque o desespero é fundamental pra minha poesia sair confusa.

domingo, 17 de novembro de 2013

Força estranha


Eu nunca soube lidar muito bem com a morte. Do alto dessa minha obsessão de querer tudo é difícil pra mim a conformidade de que aquilo tão bom que eu tinha simplesmente acabou.

Lembro da primeira pessoa que eu vi morrer. Era uma vizinha bem velhinha que, numa infância tijucana de outrora, meu porteiro me perguntou se eu queria ir lá ver. Velhos tempos de gente maluca que nem o melhor dos roteiristas faria melhor.

Desde essa idade fui assombrada pela morte. Não pela velhinha da casa ao lado. A vida vai desenhando os nossos caminhos e a gente vai aprendendo a se equilibrar aqui e ali. Mas sempre foi difícil porque eu nunca quis viver a morte de fato. Talvez ninguém queira, mas sempre me doeu o sentimento alheio, naqueles momentos em que a gente não tem a menor idéia do que falar e um abraço é sempre mais confortante do que um pesar desencaixado. A dor do outro me dói como quando me arrancam um braço. Eu nunca soube lidar direito com a morte.

Anos depois meu avô se foi e até hoje me dói todo dia. Hoje consigo ficar feliz com a convivência que tivemos, mas como eu queria ter tido mais um dia, mais um abraço, mais uma vida. E é nessas horas que me falta uma fé. Aquela certeza cega de que nos encontraremos logo ali depois da esquina. Por não conseguir ter certeza disso fico pedindo às pessoas que me prometam segurar a vida na unha pra isso que temos não consiga morrer nunca.

No fundo viver é esse cabo de guerra entre as pulsões de vida e de morte. E no meio, tentando aprender a dançar apesar da minha absoluta incompetência em fazer que esse momento não morra nunca.

Ontem o pai de uma pessoa muito querida se foi e me doeu tanto eu saber que, por maior que seja a força, apesar de toda essa gratidão e por maior que seja a fé, lá no fundo da sua fortaleza transformada em castelo de cartas, seu coração está espremido e eu não tenho como fazer nada além desse abraço tão doído na porta do cemitério.



E a coisa mais certa de todas as coisas não vale um caminho sob o sol.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Era pra ser


Era uma vez um Reino Encantado. E, como todo Reino, era uma vez as fadas, os arco-íris coloridos, o som da arpa e as declarações de amor.

Era uma vez uma Donzela Linda e um Cavalheiro Errante. Cada um no seu quadrado, como uma dessas fábulas pós modernas que, por um piscar de olhos, a Lola chega no minuto errado e não consegue parar de correr até o fim da história de amor.

Só que era uma vez eu. Que, com alma de Cupido, percebi que a Donzela era destinada ao Cavalheiro. Que pra ele não haveria brilho maior do que o sorriso dela. Era tão claro. E foi tão fácil. Tudo o que eu fiz foi perceber. Mas em tempos e reinos modernos em que as princesas não tem mais tempo pra adormecer e os príncipes não dão mais bola pro cavalo branco, perceber é coisa rara. E, então, como amiga, fiz. Dei um peteleco no destino - e nada mais do que isso - e desde esse dia os olhos do Cavaleiro e da Donzela caminham de mãos dadas num jardim florido.

Não foi nada fácil, como não era pra ser. Como toda história de amor, dragões, bruxas, precipícios e eles mesmos se puseram em seu caminho. Mas o Destino é perspicaz e algumas vezes a felicidade é pra ser. E, sentindo isso, eles foram valentes. Eles foram juntos.

E hoje eu me emociono ao te olhar. Porque finalmente o que faltava chegou. Um brinde a esse amor tão lindo. Tão era pra ser. Que assim seja. Bendita seja. Bem-vinda seja.



Antônia. O melhor projeto do meu melhor projeto.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Patota de Cosme


Lembro como se fosse ontem. A gente esperava por esse dia quase tanto quanto se espera o Natal. Me sinto de novo uma daquelas crianças correndo pelas ruas, contando quantos saquinhos tinha conquistado. Comemorando o que tinha dentro deles. Adrenalina e açúcar, símbolos de uma infância feliz. 

25 anos depois, enfurnada nesse maldito computador, eu vivo perguntando por aí se sabem que dia é hoje. Eu nunca decoro, eu nunca sei o mês em que estamos, eu não consigo acompanhar o compasso das horas. 

Quando foi que os dias deixaram de ser momentos felizes e passaram a ser metas, eu não sei. Atravessamos o mês pensando no deadline sem nos darmos conta de que de repente é Cosme e Damião e que a vida pode ser doce.



Ano passado eu trabalhava numa empresa cuja dona sempre distribuia saquinhos de Cosme e Damião. Foi interessante passar pro outro lado e me entusiasmei ao imaginar o sorriso que eu colocaria no rosto daquelas crianças.

Atravessamos a Rocinha com 100 saquinhos na mala e me frustrei ao explicar a muitas crianças do que se tratava aquela festa. Não sei se o doce hoje em dia ficou muito fácil ou se não se fazem crianças como antigamente.

Sei que o meu saquinho eu guardei.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Mendonça

Aviso aos navegantes: Esse blog tem questões com sua personalidade.

Sem saber bem ao certo se casa ou compra uma mountain bike, ele se divide entre as comédias da minha vida privada, a vontade de ser cozinheira e a certeza de que deve chutar o pau da barraca e ir conhecer o mundo.

Assim sendo, levei o blog pra Mendoza. Vem comigo.

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Eu já tinha conhecido Mendoza 5 anos antes.

Mas eram outros tempos, outra companhia, outra Luana.

Ao me deparar com a megapromo da TAM (650, com taxas, ida e volta), liguei pro meu namorado mais enófilo do que eu e declarei que era chegada a hora.

Paramos estratégicamente em Buenos Aires pra um almoço carnívoro com Ciana e Bruno e depois rumamos à Capital do vinho. Um atraso de 3 horas pra te deixar mais ansiosa e pronto: Lá estávamos nós a caminho da felicidade sem fim.

Eram só 3 dias (inteiros) lá, o que se mostrou pouco e nos deixou com vontade e planos de voltar. Valeu a pena? Muito. Mas foi meio corrido porque a gente gosta de vinho e se interessa pelo assunto. Era melhor ter ido sem pressa, degustado mais, observado mais. Mas, ainda assim, foi incrível.

Duas coisas fizeram uma diferença enorme em relação à primeira vez: Havíamos nos preparado pra viagem. Kiko obsecou e tentou entender tudo de todas as vinícolas, o que tira a virgindade do olhar mas, como o tempo era pouco, nos fez errar menos. Tínhamos nas mãos uma planilha com as bodegas que queríamos conhecer, quais eram os vinhos mais interessantes, quais planejava(mos) comprar e qual o preço do vinho no Brasil, o que fez a gente se sentir muito malandro ao adquirir vinhos por, via de regra, ¼ do preço que pagaríamos no Rio.

Vale a pena planejar as bodegas que você quer ir e agendar a visita. Sempre tem vaga (eu acho) e você leva uma meia hora a mais do que imagina pra ir de uma bodega a outra. Eu diria que 3 por dia é o número ideal de vinícolas que você deve ir. Uma de manhã e duas à tarde, almoçando na 2a.

Além disso, a grande diferença foi alugarmos um carro. Não deixe de fazer isso porque te dá a possibilidade de conhecer muito mais bodegas do que você iria de ônibus + bike, que é um programa legal, claro. Mas essa não é a Mendoza para profissionais. Primeiro porque você vai beber menos de bike, segundo porque não vai ficar tão corajoso pra comprar garrafas e trazer pro Brasil (em algumas bodegas compramos 4 vinhos de uma vez, imagina carregar isso na bicicleta). Há várias locadoras de carro por Mendoza e pagamos, por 3 dias e meio (pegamos às 10am no centro e devolvemos às 7pm no aeroporto) e pagamos 1300 pesos com seguro. Super OK.

Gastamos um tanque de gasolina, incluindo nossa ida ao Aconcagua. Foram quase 600 km em 3 dias.

Nos hospedamos no LAO Hostel, que foi fofo, incrível, delicioso e tem um preço bem ok. Os quartos são charmosos e os donos (um inglês, Mike, e uma Argentina, Romina) super atenciosos. Ficamos num quarto duplo mas eles também têm dormitórios. No verão deve ser uma delícia passer horas numa das redes da piscina, jogando conversa fora e bebendo vinho mendoncino. 

Bom, vamos aos dias.


1º dia: Juvenil do São Cristovão.

Acordamos já cansados por conta do vôo atrasadíssimo da LAN (que, aliás, foi uma bosta de companhia, com direito a atendente sem nenhuma educação e mala arrebentada de sacanagem no final). Corremos pra pegar o carro e fomos direto à Zuccardi, que era longe de todas as outras bodegas mas não queríamos deixar de ir.


Havíamos marcado um curso de degustação (165 pesos/pessoa) e foi bem legal isso. A Jimena, nossa guia, foi incrível, gente boa e fala português (nem precisava, porque a gente fala espanhol, mas só pra registrar). Aliás, é bem interessante ver o número de argentines rebolando pra falar a nossa língua. Antes tarde do que nunca.

O curso é muito legal porque você aprende a perceber os diferentes cheiros e gostos em cada vinho. Eu sempre degustei vinhos, sempre tentei observar, mas é diferente quando você faz uma degustação conduzida por alguém que entende. A partir daí todos os vinhos foram degustados com calma e atenção.

Depois da degustação, a facada inicial. 4 vinhos, um azeite e um namorado fazendo bico porque “você não deixa ele comprar todos os vinhos que ele quer”.  Você explica que vamos a muitas bodegas ainda, que são 4 garrafas já e calma, meu amor, que o mundo não vai acabar amanhã. Eu mereço.

Tínhamos agendado pra almoçar no Pan y Oliva, que é um bistrô que fica dentro do complexo da Bodega. Um bar de tapas argentinas com vinho Zuccardi. Foi BEM barato na verdade e a comida era deliciosa. Acho que gastamos uns R$25 por pessoa com vinho e 2 tapas. Delícia cremosa.

À tarde fomos na Carinae, uma bodega pequena de que tínhamos ouvido falar muito bem. É bem interessante ver as diferentes bodegas e entender os processos, os modelos de negócio etc. Na Carinae fomos atendidos pela Brigitte, uma francesa gente boa que largou tudo e, com seu marido Pierre, resolveu comprar um vinhedo em Mendoza. Que vida dura.


Passeio simples, com 2 vinhos médios: 30 pesos. Tem opções de você ir melhorando o vinho. Fizemos um bom por 65 pesos cada um.

Os vinhos lá são bem interessantes também. Me pareceram mais artesanais que nas outras bodegas. O curioso foi Brigitte contando que trabalham DEZ pessoas na Carinae. Na Zuccardi deviam ser mais de mil. Pra termos uma idéia, enquanto a Zuccardi produz 24 milhões de garrafas por ano, na Carinae são 200 mil.  E ambas produzem vinhos deliciosos.

Voltamos pro Hostel pensando no jantar, mas meu péssimo hábito de não beber água nunca + uma cidade muito muito muito seca me deixaram com um quadro bizarre de desidratação. Dormi achando que ia morrer e achamos melhor nos guardar para o dia seguinte.



2º dia: 27 anos do Tibet


Acordei renovada, tomei o café da manhã simples mas delicioso  do albergue (destaque para as tortitas mendoncinas da foto; algo entre uma focaccia e uma massa folhada. Delícia, delícia).


Saímos do hostel cedo porque o dia era longo. Nosso objetivo: Aconcagua. Kiko inventou de fazermos a Ruta 13, que era uma estrada alternativa e supostamente muito mais bonita e legal que levava a Uspallata por dentro de uma mini cordilheira. “Vai demorar um pouquinho mais, mas vale à pena”.

Pois bem. Entramos no nosso Celta 1.0 alugado e lá fomos. O GPS ajudou muito a encontrar a entrada (aliás, taí outra coisa incrível pra levar a Mendoza: GPS!). Meia hora perdidos e encontramos a entrada da estrada. O dia estava apenas começando.

Eis que a Ruta 13, além de linda, é bizarra. Uma estrada toda de pedrinhas daquelas que arrebentam a suspensão do carro, só que íngreme e estreita. Com curvas que te fazem fechar os olhos e rezar. Ao nosso lado, pilotos de motocross treinando. NENHUM carro passou por nós nas 4,5 horas que estivemos na estrada. Mas passaram guanacos, passaram condores e vimos uma vegetação incrível que não veríamos na estrada oficial. Vale a pena? Muito, mas alugue um 4X4 . Eu pensei que ia morrer.


De Uspallata é mais uma horinha até o Aconcagua. Um friiiiiio na base que nem nos animou muito a entrar no parque. Ficamos ali na base mesmo, olhando, fazendo fotos.



De lá descemos pra Puente del Inca, uma formação rochosa estranhíssima que fica 5’ abaixo do parque.  O local, que já foi um hotel-Spa, atrai turístas do mundo inteiro pela curiosa peculiariedade da ponte. O que parece é que os cristais contidos na água fazem com que qualquer objeto mergulhado nela “vire pedra”. Em volta da ponte, dezenas de barracas vendendo souvenirs bizarros. Fizemos um pic-nic romântico (em pé, ao lado do carro, 7% de umidade relativa no ar e uns 5 graus pra emocionar. E voltamos correndo pra Mendoza.


Passamos no Wines of Mendoza (uma loja chique dentro do Ritz) pra conhecer mas achamos que não valia a pena e voltamos pro hostel. O programa da noite? Jantar no Don Mario, restaurante famosíssimo por seu vinho e sua carne. Gastamos 340 pesos numa refeição divina para 2, vinho incluso. Carinho (tipo, menos de 100 reais pra 2, com entrada, assado de tiras, vinho e sobremesa). Como a gente come mal no Rio, Jesus.


3º dia: É o Bonde do Vinho.
Começamos o dia pela Catena Zapata, que era a bodega que mais queríamos ver. É foda, com certeza, mas foi a mais sem graça da viagem. Asséptica demais, americanizada demais. Uma loira robô nos falava sobre vinho e ficava tensa cada vez que perguntávamos algo. Parecia querer acabar o tour e vender mais. Me irritou um pouco isso, mas enfim, é a Catena, né? Bora aproveitar o vinho, que, afinal, é o que interessa.

De lá passamos na Séptima, que não quis nos receber (assim como a Luigi Bosca, porque não tínhamos reserva). Explicamos que queríamos apenas comprar, e nada mais. Não aceitaram. Sem problemas, fomos gastar nossos pesos em outra bodega. No caso, a Ruca Malen, que é linda, um ótimo lugar pra almoçar, fica do lado da Cobos e da Septima e tem vinhos maravilhosos por um preço irrisório.

Partimos então para a Cobos, a idéia mais genial que tivemos. Tínhamos agendado um almoço-piquenique no jardim. Queijos, frios, pães e 2 vinhos diferentes por 165 pesos por pessoa. Inicialmente achei meio carinho mas pensei “Ah, Luana, tá de férias com seu namorado, oportunidade única, deixa de ser judas”. Acabou se revelando a decisão mais acertada de todas: Vale muito à pena. Primeiro porque o lugar é lindo, segundo porque a comida é uma delícia e, sinceramente, fomos tratados como REIS. Enquanto a bodega anterior não nos deixou passar da portaria, a Cobos fez de TUDO pra tornar aquele momento o mais especial possível. No fim ganhamos SEIS vinhos em vez de dois e passamos umas duas horas lá, fazendo piquenique e namorando. Como deve ser.



Pra fechar, fomos na Nieto Senetiner comprar os vinhos que ainda queríamos. Também nos recebeu sem frescura. E eu aprendi uma coisa sobre Mendoza e as vinícolas: se você gosta muito de vinho, vá. Alugue um carro. E não se pergunte muito sobre “quais as vinicolas que não cobram a visita”. Vá nas que você mais gosta, mesmo, porque no fim sai tudo tão barato… É uma economia porca ir na X e não na Y só porque a degustação da X é 20 pesos mais barata. 20 pesos são 5 reais. Sinceramente, não vale a economia.

E traga vinho na volta pro Brasil. Sem medo. A gente comprou umas capinhas de plástico bolha que serão devidamente reaproveitadas. E levamos 5m de plástico bolha do Brasil. E uma mala vazia dentro da outra. É, a gente foi profissional. E valeu MUITO à pena.




Saudades, já. Eu e eles.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Lacuna

Eu não sei mais escrever.

Fico olhando essa página em branco, pensando no tanto que tenho a dizer, e só consigo pensar que não quero falar nada.

A verdade é que não quero mais reclamar do trânsito, do cansaço e da minha vontade de parar de trabalhar pra sempre.

Do quanto sinto saudades de nunca ter cuidado da minha horta. Hoje mesmo, de manhã, percebi que mais uma hortelã morreu e me senti a mais incompetente das donas-de-casa. A pessoa que não sabe cuidar de um vaso e toda toda querendo tomar conta da própria vida.

Sentei e tentei meditar, mas o canto dos passarinhos que eu nunca consigo parar pra ouvir me estourou os tímpanos. Um silêncio que me invadia a alma de um jeito que incomodou tanto que tiver que sair correndo, correndo, correndo, fone no ouvido, eu e Clarice, minha mais nova melhor amiga. Eu comecei a correr não foi pra ficar magra. É que eu não aguentava mais ficar aqui. Eu corro é pra parar de pensar. Sigo em frente porque é pra frente que se vai, mesmo sem ter nada pra falar.

Ou sem saber para onde vamos.

Ou sem saber de onde viemos.

Ou (sem ter a mais absoluta idéia de) qual o sentido dessa porra toda.

Maldito existencialismo que não me deixa aquietar o espírito.

Maldito silêncio que não pára de gritar no meu ouvido. Maldito peixes, maldito escorpião.




Fora isso, nada.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Menos Bial e mais Cortázar



A tarefa de amolecer diariamente o tijolo, a tarefa de abrir caminho na massa pegajosa que se proclama mundo, esbarrar cada manhã com o paralelepípedo de nome repugnante, com a satisfação canina de que tudo esteja em seu lugar, a mesma mulher ao lado, os mesmos sapatos e o mesmo sabor da mesma pasta de dentes, a mesma tristeza das casas em frente, do sujo tabuleiro de janelas de tempo com seu letreiro HOTEL DE BELGIQUE.

Enfiar a cabeça como um touro apático contra a massa transparente em cujo centro bebemos café com leite e abrimos o jornal para saber o que aconteceu em qualquer dos cantos do tijolo de cristal.  Resistir a que o ato delicado de girar a maçaneta, esse ato pelo qual tudo poderia se transformar, possa cumprir-se com a eficácia de um reflexo cotidiano.  Até logo, querida.  Passe bem.

Apertar uma colherinha entre os dedos e sentir seu latejar metálico, sua advertência suspeita.  Como custa negar uma colherinha, negar uma porta, negar tudo o que o hábito lambe até dar-lhe uma suavidade satisfatória.  Quanto mais simples é aceitar a fácil solicitação da colher, usá-la para mexer o café.

E não é mau que as coisas nos encontrem outra vez todo dia e sejam as mesmas.  Que a nosso lado esteja a mesma  mulher, o mesmo relógio e que o romance aberto em cima da mesa comece a andar outra vez na bicicleta de nossos óculos, por que haveria de ser mau ?  Mas como um touro triste é preciso baixar a cabeça, do centro do tijolo de cristal empurrar para fora, em direção ao outro tão perto de nós, inacessível como o toureiro tão perto do touro.  Castigar os olhos fitando isso que anda no céu e aceita astuciosamente seu nome de nuvem, sua resposta catalogada na memória.  Não pense que o telefone vai lhe dar os números que procura.  Por que haveria de dá-los ?  Virá somente o que você tem preparado e resolvido, o triste reflexo de sua esperança, esse macaco que se coça em cima de uma mesa e treme de frio.  Quebre a cabeça desse macaco, corra em direção à parede e abra caminho.  Oh, como cantam no andar de cima !  Há um andar em cima nesta casa, com outras pessoas. Há um andar em cima  onde moram pessoas que não percebem seu andar de baixo, e estamos todos dentro do tijolo de cristal.  E se, de repente, uma traça parar pertinho de um lápis e palpitar como um fogo cinzento, olhe-a, eu a estou olhando, estou apalpando seu coração pequenino, e ouco-a :  essa traça ressoa na pasta de cristal congelado, nem tudo está perdido.  Quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua ;  não a norma já aceita, não as casas já conhecidas, não o hotel em frente ; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta do tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina.

Cortázar
pra enfeitar a vida.