sexta-feira, 5 de abril de 2013

Menos Bial e mais Cortázar



A tarefa de amolecer diariamente o tijolo, a tarefa de abrir caminho na massa pegajosa que se proclama mundo, esbarrar cada manhã com o paralelepípedo de nome repugnante, com a satisfação canina de que tudo esteja em seu lugar, a mesma mulher ao lado, os mesmos sapatos e o mesmo sabor da mesma pasta de dentes, a mesma tristeza das casas em frente, do sujo tabuleiro de janelas de tempo com seu letreiro HOTEL DE BELGIQUE.

Enfiar a cabeça como um touro apático contra a massa transparente em cujo centro bebemos café com leite e abrimos o jornal para saber o que aconteceu em qualquer dos cantos do tijolo de cristal.  Resistir a que o ato delicado de girar a maçaneta, esse ato pelo qual tudo poderia se transformar, possa cumprir-se com a eficácia de um reflexo cotidiano.  Até logo, querida.  Passe bem.

Apertar uma colherinha entre os dedos e sentir seu latejar metálico, sua advertência suspeita.  Como custa negar uma colherinha, negar uma porta, negar tudo o que o hábito lambe até dar-lhe uma suavidade satisfatória.  Quanto mais simples é aceitar a fácil solicitação da colher, usá-la para mexer o café.

E não é mau que as coisas nos encontrem outra vez todo dia e sejam as mesmas.  Que a nosso lado esteja a mesma  mulher, o mesmo relógio e que o romance aberto em cima da mesa comece a andar outra vez na bicicleta de nossos óculos, por que haveria de ser mau ?  Mas como um touro triste é preciso baixar a cabeça, do centro do tijolo de cristal empurrar para fora, em direção ao outro tão perto de nós, inacessível como o toureiro tão perto do touro.  Castigar os olhos fitando isso que anda no céu e aceita astuciosamente seu nome de nuvem, sua resposta catalogada na memória.  Não pense que o telefone vai lhe dar os números que procura.  Por que haveria de dá-los ?  Virá somente o que você tem preparado e resolvido, o triste reflexo de sua esperança, esse macaco que se coça em cima de uma mesa e treme de frio.  Quebre a cabeça desse macaco, corra em direção à parede e abra caminho.  Oh, como cantam no andar de cima !  Há um andar em cima nesta casa, com outras pessoas. Há um andar em cima  onde moram pessoas que não percebem seu andar de baixo, e estamos todos dentro do tijolo de cristal.  E se, de repente, uma traça parar pertinho de um lápis e palpitar como um fogo cinzento, olhe-a, eu a estou olhando, estou apalpando seu coração pequenino, e ouco-a :  essa traça ressoa na pasta de cristal congelado, nem tudo está perdido.  Quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua ;  não a norma já aceita, não as casas já conhecidas, não o hotel em frente ; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta do tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina.

Cortázar
pra enfeitar a vida.

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