sexta-feira, 24 de maio de 2013

Mendonça

Aviso aos navegantes: Esse blog tem questões com sua personalidade.

Sem saber bem ao certo se casa ou compra uma mountain bike, ele se divide entre as comédias da minha vida privada, a vontade de ser cozinheira e a certeza de que deve chutar o pau da barraca e ir conhecer o mundo.

Assim sendo, levei o blog pra Mendoza. Vem comigo.

::


Eu já tinha conhecido Mendoza 5 anos antes.

Mas eram outros tempos, outra companhia, outra Luana.

Ao me deparar com a megapromo da TAM (650, com taxas, ida e volta), liguei pro meu namorado mais enófilo do que eu e declarei que era chegada a hora.

Paramos estratégicamente em Buenos Aires pra um almoço carnívoro com Ciana e Bruno e depois rumamos à Capital do vinho. Um atraso de 3 horas pra te deixar mais ansiosa e pronto: Lá estávamos nós a caminho da felicidade sem fim.

Eram só 3 dias (inteiros) lá, o que se mostrou pouco e nos deixou com vontade e planos de voltar. Valeu a pena? Muito. Mas foi meio corrido porque a gente gosta de vinho e se interessa pelo assunto. Era melhor ter ido sem pressa, degustado mais, observado mais. Mas, ainda assim, foi incrível.

Duas coisas fizeram uma diferença enorme em relação à primeira vez: Havíamos nos preparado pra viagem. Kiko obsecou e tentou entender tudo de todas as vinícolas, o que tira a virgindade do olhar mas, como o tempo era pouco, nos fez errar menos. Tínhamos nas mãos uma planilha com as bodegas que queríamos conhecer, quais eram os vinhos mais interessantes, quais planejava(mos) comprar e qual o preço do vinho no Brasil, o que fez a gente se sentir muito malandro ao adquirir vinhos por, via de regra, ¼ do preço que pagaríamos no Rio.

Vale a pena planejar as bodegas que você quer ir e agendar a visita. Sempre tem vaga (eu acho) e você leva uma meia hora a mais do que imagina pra ir de uma bodega a outra. Eu diria que 3 por dia é o número ideal de vinícolas que você deve ir. Uma de manhã e duas à tarde, almoçando na 2a.

Além disso, a grande diferença foi alugarmos um carro. Não deixe de fazer isso porque te dá a possibilidade de conhecer muito mais bodegas do que você iria de ônibus + bike, que é um programa legal, claro. Mas essa não é a Mendoza para profissionais. Primeiro porque você vai beber menos de bike, segundo porque não vai ficar tão corajoso pra comprar garrafas e trazer pro Brasil (em algumas bodegas compramos 4 vinhos de uma vez, imagina carregar isso na bicicleta). Há várias locadoras de carro por Mendoza e pagamos, por 3 dias e meio (pegamos às 10am no centro e devolvemos às 7pm no aeroporto) e pagamos 1300 pesos com seguro. Super OK.

Gastamos um tanque de gasolina, incluindo nossa ida ao Aconcagua. Foram quase 600 km em 3 dias.

Nos hospedamos no LAO Hostel, que foi fofo, incrível, delicioso e tem um preço bem ok. Os quartos são charmosos e os donos (um inglês, Mike, e uma Argentina, Romina) super atenciosos. Ficamos num quarto duplo mas eles também têm dormitórios. No verão deve ser uma delícia passer horas numa das redes da piscina, jogando conversa fora e bebendo vinho mendoncino. 

Bom, vamos aos dias.


1º dia: Juvenil do São Cristovão.

Acordamos já cansados por conta do vôo atrasadíssimo da LAN (que, aliás, foi uma bosta de companhia, com direito a atendente sem nenhuma educação e mala arrebentada de sacanagem no final). Corremos pra pegar o carro e fomos direto à Zuccardi, que era longe de todas as outras bodegas mas não queríamos deixar de ir.


Havíamos marcado um curso de degustação (165 pesos/pessoa) e foi bem legal isso. A Jimena, nossa guia, foi incrível, gente boa e fala português (nem precisava, porque a gente fala espanhol, mas só pra registrar). Aliás, é bem interessante ver o número de argentines rebolando pra falar a nossa língua. Antes tarde do que nunca.

O curso é muito legal porque você aprende a perceber os diferentes cheiros e gostos em cada vinho. Eu sempre degustei vinhos, sempre tentei observar, mas é diferente quando você faz uma degustação conduzida por alguém que entende. A partir daí todos os vinhos foram degustados com calma e atenção.

Depois da degustação, a facada inicial. 4 vinhos, um azeite e um namorado fazendo bico porque “você não deixa ele comprar todos os vinhos que ele quer”.  Você explica que vamos a muitas bodegas ainda, que são 4 garrafas já e calma, meu amor, que o mundo não vai acabar amanhã. Eu mereço.

Tínhamos agendado pra almoçar no Pan y Oliva, que é um bistrô que fica dentro do complexo da Bodega. Um bar de tapas argentinas com vinho Zuccardi. Foi BEM barato na verdade e a comida era deliciosa. Acho que gastamos uns R$25 por pessoa com vinho e 2 tapas. Delícia cremosa.

À tarde fomos na Carinae, uma bodega pequena de que tínhamos ouvido falar muito bem. É bem interessante ver as diferentes bodegas e entender os processos, os modelos de negócio etc. Na Carinae fomos atendidos pela Brigitte, uma francesa gente boa que largou tudo e, com seu marido Pierre, resolveu comprar um vinhedo em Mendoza. Que vida dura.


Passeio simples, com 2 vinhos médios: 30 pesos. Tem opções de você ir melhorando o vinho. Fizemos um bom por 65 pesos cada um.

Os vinhos lá são bem interessantes também. Me pareceram mais artesanais que nas outras bodegas. O curioso foi Brigitte contando que trabalham DEZ pessoas na Carinae. Na Zuccardi deviam ser mais de mil. Pra termos uma idéia, enquanto a Zuccardi produz 24 milhões de garrafas por ano, na Carinae são 200 mil.  E ambas produzem vinhos deliciosos.

Voltamos pro Hostel pensando no jantar, mas meu péssimo hábito de não beber água nunca + uma cidade muito muito muito seca me deixaram com um quadro bizarre de desidratação. Dormi achando que ia morrer e achamos melhor nos guardar para o dia seguinte.



2º dia: 27 anos do Tibet


Acordei renovada, tomei o café da manhã simples mas delicioso  do albergue (destaque para as tortitas mendoncinas da foto; algo entre uma focaccia e uma massa folhada. Delícia, delícia).


Saímos do hostel cedo porque o dia era longo. Nosso objetivo: Aconcagua. Kiko inventou de fazermos a Ruta 13, que era uma estrada alternativa e supostamente muito mais bonita e legal que levava a Uspallata por dentro de uma mini cordilheira. “Vai demorar um pouquinho mais, mas vale à pena”.

Pois bem. Entramos no nosso Celta 1.0 alugado e lá fomos. O GPS ajudou muito a encontrar a entrada (aliás, taí outra coisa incrível pra levar a Mendoza: GPS!). Meia hora perdidos e encontramos a entrada da estrada. O dia estava apenas começando.

Eis que a Ruta 13, além de linda, é bizarra. Uma estrada toda de pedrinhas daquelas que arrebentam a suspensão do carro, só que íngreme e estreita. Com curvas que te fazem fechar os olhos e rezar. Ao nosso lado, pilotos de motocross treinando. NENHUM carro passou por nós nas 4,5 horas que estivemos na estrada. Mas passaram guanacos, passaram condores e vimos uma vegetação incrível que não veríamos na estrada oficial. Vale a pena? Muito, mas alugue um 4X4 . Eu pensei que ia morrer.


De Uspallata é mais uma horinha até o Aconcagua. Um friiiiiio na base que nem nos animou muito a entrar no parque. Ficamos ali na base mesmo, olhando, fazendo fotos.



De lá descemos pra Puente del Inca, uma formação rochosa estranhíssima que fica 5’ abaixo do parque.  O local, que já foi um hotel-Spa, atrai turístas do mundo inteiro pela curiosa peculiariedade da ponte. O que parece é que os cristais contidos na água fazem com que qualquer objeto mergulhado nela “vire pedra”. Em volta da ponte, dezenas de barracas vendendo souvenirs bizarros. Fizemos um pic-nic romântico (em pé, ao lado do carro, 7% de umidade relativa no ar e uns 5 graus pra emocionar. E voltamos correndo pra Mendoza.


Passamos no Wines of Mendoza (uma loja chique dentro do Ritz) pra conhecer mas achamos que não valia a pena e voltamos pro hostel. O programa da noite? Jantar no Don Mario, restaurante famosíssimo por seu vinho e sua carne. Gastamos 340 pesos numa refeição divina para 2, vinho incluso. Carinho (tipo, menos de 100 reais pra 2, com entrada, assado de tiras, vinho e sobremesa). Como a gente come mal no Rio, Jesus.


3º dia: É o Bonde do Vinho.
Começamos o dia pela Catena Zapata, que era a bodega que mais queríamos ver. É foda, com certeza, mas foi a mais sem graça da viagem. Asséptica demais, americanizada demais. Uma loira robô nos falava sobre vinho e ficava tensa cada vez que perguntávamos algo. Parecia querer acabar o tour e vender mais. Me irritou um pouco isso, mas enfim, é a Catena, né? Bora aproveitar o vinho, que, afinal, é o que interessa.

De lá passamos na Séptima, que não quis nos receber (assim como a Luigi Bosca, porque não tínhamos reserva). Explicamos que queríamos apenas comprar, e nada mais. Não aceitaram. Sem problemas, fomos gastar nossos pesos em outra bodega. No caso, a Ruca Malen, que é linda, um ótimo lugar pra almoçar, fica do lado da Cobos e da Septima e tem vinhos maravilhosos por um preço irrisório.

Partimos então para a Cobos, a idéia mais genial que tivemos. Tínhamos agendado um almoço-piquenique no jardim. Queijos, frios, pães e 2 vinhos diferentes por 165 pesos por pessoa. Inicialmente achei meio carinho mas pensei “Ah, Luana, tá de férias com seu namorado, oportunidade única, deixa de ser judas”. Acabou se revelando a decisão mais acertada de todas: Vale muito à pena. Primeiro porque o lugar é lindo, segundo porque a comida é uma delícia e, sinceramente, fomos tratados como REIS. Enquanto a bodega anterior não nos deixou passar da portaria, a Cobos fez de TUDO pra tornar aquele momento o mais especial possível. No fim ganhamos SEIS vinhos em vez de dois e passamos umas duas horas lá, fazendo piquenique e namorando. Como deve ser.



Pra fechar, fomos na Nieto Senetiner comprar os vinhos que ainda queríamos. Também nos recebeu sem frescura. E eu aprendi uma coisa sobre Mendoza e as vinícolas: se você gosta muito de vinho, vá. Alugue um carro. E não se pergunte muito sobre “quais as vinicolas que não cobram a visita”. Vá nas que você mais gosta, mesmo, porque no fim sai tudo tão barato… É uma economia porca ir na X e não na Y só porque a degustação da X é 20 pesos mais barata. 20 pesos são 5 reais. Sinceramente, não vale a economia.

E traga vinho na volta pro Brasil. Sem medo. A gente comprou umas capinhas de plástico bolha que serão devidamente reaproveitadas. E levamos 5m de plástico bolha do Brasil. E uma mala vazia dentro da outra. É, a gente foi profissional. E valeu MUITO à pena.




Saudades, já. Eu e eles.

2 comentários:

Vanessa disse...

- Ah, os azeites da Zuccardi... bom saber que azeite não é tudo igual, né? A alface chega fica gostosa;
- "destaque para as tortitas mendoncinas da foto". Cade a foto?
- Luana, assim como a Vanessa, fica com os dentes azuis quando bebe vinho tinto.
- ficou ótimo o post :-)

Aline Silpe disse...

Luana, estava com saudades dos seu relatos de viagem! Bj de uma leitora desconhecida.