quinta-feira, 12 de junho de 2014

Impávido colosso

Ninguém me contou. 

Aconteceu comigo. Estava sentada no ônibus fretado, indo pro Riocentro. Aquela torre de babel: ingleses, japoneses, alemães. As muitas línguas que invadiram nossa cidade e hoje se juntaram numa só: Brasil. 

A Copa chegou. Chegou cansada, ferida, rouca de tanto gritar. Aos trancos e barrancos chegou. E eu, que desde junho explico os porquês de achar a Copa uma coisa boa, acordei uma hora antes pra torcer pelo Brasil.

Sentei com meu casaco amarelo e esperei o ônibus partir em direção ao trabalho mais importante da minha vida: Depois de 14 anos, cá estou eu produzindo uma Copa do Mundo. Que, apesar de ter sido feita toda errada, eu continuo torcendo pra que façamos bonito porque o brasileiro é o povo que recebe bem em casa.

Escondi o azul do uniforme embaixo do verde e amarelo e fiquei esperando o ônibus partir. E cada uma das nossas visitas quebrava o protocolo e sorria pra mim. E eu aqui, impávido colosso com meu casaco amarelo. Até que um conterrâneo me quebrou.

Um voluntário da Copa entrou no ônibus, olhou pra mim e sorriu dizendo: Biutiful! Eu sorri de volta e respondi "obrigada". Ele se surpreendeu. "Ué, você é brasileira?". "Claro!". E fim de papo.

O que o sorriso não mostra é o porquê da surpresa. O único povo não orgulhoso do Brasil é o próprio Brasil. Esse nosso eterno complexo de vira-lata de um povo exausto após 
502 anos de opressão e 12 aprendendo a ser vidraça. 

Por isso eu fui trabalhar na Copa. Pela oportunidade única de expor essa ferida, também.

Eu quero é pegar aquele voluntário pela mão na hora do hino e gritar que somos Gigante pela própria natureza. Que, como donos da festa,  paremos de nos comportar como o filho do porteiro. E que mostremos pra essa incrível torre de babel que tenho orgulho de receber em casa que chegou a hora de mostrar quem é quem manda na nossa casa.


Bora pra cima deles com tudo, Brasil!

sábado, 15 de março de 2014

trintaecinco


Foi só ontem que a ficha caiu.

Foi no meio de um dia corrido, tipo aqueles em que a gente vai atropelando as horas torcendo pra que tudo aquilo acabe logo. Na gincana das reuniões, de repente bateu: Gente! Faço trinta e cinco amanhã!

Ainda me lembro do dia em que fizvinte. "Meu Deus, agora eu tenho vinte anos!". Aquilo batia muito distante pra mim. Eu sempre teria 20 anos no ano 2000 e isso me parecia uma coincidência incrível. Se aos vinte eu me imaginava viajando o mundo, adulta, quase casada e feliz, hoje, em que me entregaram os trinta e cinco, eu não consigo decidir o que devo vestir. Não me organizei pra ter trinta e cinco.

Eu sempre me imaginei com trinta e cinco mãe, casada, feliz. Hoje eu percebo que não era necessariamente isso, mas que era exatamente por aí. Ainda nos cobram filho, ainda me rotulam casada apesar de eu explicar que não. Que o brilho do olho daquela menina ainda espera pelo vestido de casamento da Cinderela.

E hoje eu acordo com trinta e cinco cansada e pensando que talvez esteja trabalhando demais. Querendo cuidar melhor do meu corpo e da minha alimentação. Preocupada com isso de ter que cuidar da alma. Mas de bem com a vida e com meu entendimento sobre ela.

Aos trinta e cinco aquela menina de vinte entende melhor que que viver é vencer essa corrida de obstáculos diária tentando se incomodar menos com o cronômetro na mão. Que é entender que não existe ideal de felicidade; somos um amontoado de momentos felizes. Somos uma força que pulsa. Somos um nó. Somos tudo isso e não somos de um jeito só.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Esquizofrênicos ficamos nós

Mal dormi.

A primeira noite depois dessa notícia horrível foi de apertar com as mãos o coração dentro do peito.
Passei as horas olhando o branco desse teto e pensando: Como é que pode?
Como disse minha mãe chorando, "tá errado isso, os filhos são pra amarem seus pais".
Um filho drogado mata seu pai e, com suas próprias mãos, arranca de nós uma gama de possibilidades.

Mas será só isso?

De repente se foi O CARA. Se somos, é por causa dele. Se aprendemos a perguntar melhor, é por causa dele. Se somos curiosos, é por causa dele.

Ficamos órfãos do mal humorado mais gentil que já teve o cinema nacional.

Coutinho passou pelo mundo pra reinventar nosso olhar e respeitar o próximo. Fosse na Inglaterra, era feito Sir.


Quem nos dera honrar esse caminho. Quem nos dera.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sede e paciência


Morreu Juan Gelman e hoje conheci esse poema de arrancar o fôlego.

No es para quedarnos en casa que hacemos una casa
No es para quedarnos en el amor que amamos
y no morimos para morir
Tenemos sed y
paciencias de animal


sem mais.