sexta-feira, 29 de abril de 2016

Canção do Exílio



Nasci em 15 de março de 1979, uma quinta-feira, dia da posse do Presidente Figueiredo, no apagar das luzes de uma Ditadura Militar que acabou no dia do meu aniversário de 6 anos.

Sempre mexeu muito comigo a questão da Ditadura e hoje sonhei com uma palavra: Pátria. 

E acordei me perguntando que sentimento é esse que nos faz voltar sempre pra casa, ainda que não entendamos muito o porquê. Que não reconheçamos mais os quadros na parede. Que não pertençamos mais nem lá, nem aqui e o nosso coração nos faça querer seguir sempre em frente, ignorando a redondisse da Terra que no final sempre vai nos levar pro lugar de onde viemos. 

Qual o sentido de uma fronteira física em tempos de amores líquidos e valores flexíveis? 

Como posso declarar amor à Pátria nessa sexta-feira de sol quando eu olho, olho e me envergonho de quase tudo que vem dela? Que pátria é essa que segue torturando uma mulher que deu o sangue em nome do seu País e de cada um que lá morava? Até quando segurar-se em seus ideais com tanta força que eles não escapem por entre os dedos? Até quando amar sem ser correspondida?

Quando eu era criança eu achava chiquérrimos aqueles que tinham sido exilados. Eu brincava de faz-de-conta e tinha certeza de que, se preciso fosse, pegaria em armas para lutar pelo meu País.

Hoje eu me sinto assim. Impotente por não poder salvar a minha Pátria ao mesmo tempo que entendendo que antes da gente se arrumar para salvar o mundo, é preciso que a gente vista a nossa capa vermelha e comece a salvando a gente mesma. E aí a gente percebe que pra conseguir a paz dentro de casa, pode ser preciso derrubar as paredes que ela tem.

Lembrei agora da minha Tia, que um dia me disse estar feliz por eleger uma Presidenta que dizia: "Fui torturada, e nunca entreguei os meus".

É isso. Pátria é onde estão os meus.


(Maria) Betânia
Please send me a letter
I wish to know things
Are getting better


Por Luana



3 comentários:

MEMÓRIAS CAMINHADAS disse...

Querida sobrinha, você sempre me emociona. Muita clareza, boniteza, tristeza no seu texto, nesse momento tão difícil em nosso país!!!

MEMÓRIAS CAMINHADAS disse...

Querida sobrinha, você sempre me emociona. Muita clareza, boniteza, tristeza no seu texto, nesse momento tão difícil em nosso país!!!

Beca Furtado disse...

Querida amiga, difícil lutar, mas só conseguiremos mudar, se começarmos algo. Orgulho de nossa pátria está nos gestos de pessoas como tu, que fazem a diferença.