segunda-feira, 25 de abril de 2016

Como um filme pode mudar sua vida - indagações num domingo de chuva

E o debate começa depois do filme com os diretores Jorge Furtado e José Pedro Goulart. Grandes cineastas gaúchos que mudaram, de certa forma, minha vida.
Jorge começou falando que este filme, em 1986, mudou a deles.
Fico imaginando como, iniciado a abertura pós golpe, que O Dia em que Dorival Encarou a Guarda foi feito.
Estes dias escrevi sobre um palavrão que ouvi nas ruas, quando foi preciso gritar alto para tirar Collor do poder e que senti o poder da palavra ao cantar contra alguém acima de mim e de todos.
Lembro de assistir Dorival, talvez na mesma época em que vi Ilha das Flores. Eu tinha 9 anos.
As frases destes dois filmes me impactaram imensamente.
"Milico e Merda pra mim é a mesma coisaaaaa! - num grito alto e raivoso de um Negão deste tamanho!, que fomos descobrir que nem era tão alto assim e precisou de uma "três tabela"pra alcançar nas grades da cela carcerária e que lia histórias infantis com voz doce num programa de uma tv paulista.
Como, saindo deste momento importante, eles tiveram o culhão pra fazer um filme deste. Sabe aquela sensação de sair do cinema com a alma lavada, de ter se contorcido na cadeira e querer gritar ainda mais alto e cuspir junto com Dorival na cara dos que executam ordens sem saber o por que o fazem.
Um filme impecável, com diálogos perfeitos, uma decupagem de tirar o chapéu e atores escolhidos a dedo.
Que bom ter estes professores para minha formação.
Ilha das Flores, com seu primeiro lettering, em letras de um computador arcaico: Deus não existe. Não sei se lembro ou se me contaram que meu avô saiu da sessão assim que o filme começou...
Poder escrever sobre um momento político, e conseguir tirar sensações da plateia que se exalta, ri e aplaude de pé todos os diálogos é de uma sutileza e requinte que sempre vou lembrar.
Jorge ainda comentou que sua filha Alice um dia chegou em casa perguntando indignada se seus pais tinham vivido na Ditadura, ela chocada indagou: vocês viveram naquela época e não fizeram nada?? - Jorge pensativo: fizemos filmes.
Colocaria nesta mesma  lista o belo e imperdível Deu pra ti Anos 70. Um filme de Nelson Nadotti e Giba Assis Brasil, sobre juventude e tudo aquilo que vivemos neste momento de transformações internas e externas desta época. - saudosismos meu? Bairrismo portoalegrense? Uma identificação ou uma projeção do que fui ou queria ter sido?
Deu pra Ti Anos 70
Escrevo isso porque estou aqui, no momento político em que estamos vivendo, pensando nos belos filmes que deverão vir junto com esta revolta e insatisfação política dos dias de hoje.

Neste último Festival de Tiradentes tive a honra de assistir a estreia de Jovens Infelizes ou Um Homem que Grita Não É Um Urso que Dança, vencedor da Mostra Aurora (seção competitiva de longas-metragens) de Thiago B. Mendonça e fiquei feliz em poder estar naquela plateia, exaltada, com aquele tipo de filme que estava sendo mostrado e que, sem dúvida, era o melhor do festival.
Escrevo isso pensando que para alguma coisa boa deve servir este momento vergonhoso que estamos vivendo. Que seja para ir às ruas e gritar o que vem de dentro. Que a gente possa mostrar nas telas o que revolta e está entalado na garganta.

Escrevo apenas para dizer muito obrigada. Somos nós que mudamos com filmes como estes.
Fiquem aqui com Dorival, este homem que só queria tomar um banho, que deve ser visto e mostrado para todos aqueles que querem entender um pouco sobre o Brasil e seus 52% de negros que o habitam. Aproveite! - o deleite é de graça.
O Dia em que Dorival encarou a Guarda

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