sexta-feira, 3 de junho de 2016

Sobre aquela que passa, sobre aquele que senta



Na minha rua tem um mendigo.

Sem perceber, já estava eu começando mais um dia destilando todo o meu preconceito mundo afora.

Somos seres em construção. Me perdoe e me deixe recome
çar o dia. 

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Na minha rua tem um cara que, ao que me parece, mora na rua. Ou, pelo menos, na minha rua tem um cara que, quando eu passo, está sempre lá. 

[sabe lá o que esse cara pensa de mim, essa mulher que, toda vez que ele senta, passa lá].

Pois acontece que todos os dias em que passo, e lá se vão 6 meses, eu vejo ele sentado ali. Às vezes ele está com um cachorro, às vezes tem um amigo do lado, mas sempre me dá bom dia daquele jeito malandro californiano e me pergunta como é que eu estou.

Eu sempre sorrio e respondo de volta. At
é que hoje passei o dia pensando naquele cara.

O que faz uma pessoa de trinta e poucos anos dar checkout desse mundo cão? Qual será a história daquele cara? O que será de tão grave que esse mundo fez com ele pra que ele tivesse forças pra, ainda que do jeito dele e ainda que diferente do meu, dizer que "foda-se cansei dessa porra toda e tô saindo fora dessa maluquice" ?







E atravessei a rua correndo pra não perder o ônibus que vai me levar ao meu trabalho, onde passarei oito horas do meu dia, cinco dias da minha semana vendendo minha alma, a minha criatividade e o que ainda me resta dos meus sonhos de juventude pra uma empresa que tem 220 mil pessoas fazendo exatamente a mesma coisa que eu nunca jamais em tempo algum esquecendo de bater meu ponto na hora conveniente para poder estar em dia com as minhas obrigações enquanto cidadã.

Porque, né, imagina, passar por uma humilhação dessas.






Cada um de nós está passando por uma batalha sobre a qual você não sabe nada a respeito. Seja gentil. Sempre.