quinta-feira, 7 de julho de 2016

Como acabar com os cabelos brancos


Hoje acabei me atrasando para o trabalho

Estava me penteando olhando pro espelho e vi ali
um 
dois
dez
novos fios de cabelo branco
que eu tenho a absoluta certeza de que há 2 meses já não estavam mais ali.

Nada contra os fios, que me dão sabedoria e a graça de quem bem sabe que 37 são os novos 27 - tamo aí, cada vez mais leve, dez anos colocando Saturno no bolso. 

Mas fato é que eles não estavam ali a agora estão.
Me atrasei por isso: De repente, me dei conta de que o mundo inteiro podia esperar pra eu parar pra pensar dias sim, dias não, estou aqui, sobrevivendo cheia de arranhão. 
Demorei porque, ao fechar os olhos pra agradecer cada um deles, acabei perdendo o relógio de vista.
E lembrei daquele texto de embalagem de xampú que acabei não escrevendo meses atrás: A melhor receita pra acabar com os cabelos brancos é mudar a forma que você vê o trabalho que você faz.

Às vezes, basta um novo olho.

Outras, é preciso matar o trabalho.

Foi isso.

Me atrasei. 
Não fui.
Não era eu. 

Eu era mesmo essa aqui.
Livre

E cheia de cabelo branco
Essa aqui, pé na porta. pé na estrada. pé de vento. 

Mão no leme, pé no furacão.
Mais uma vez 
Teimando em ser eu
Todo dia.

Ainda bem.

terça-feira, 5 de julho de 2016

O que você levaria para o fim do mundo?


CENA 1 / INT / NOITE


- Amor, acorda. Tá tocando o alarme de incêndio do prédio. Levanta agora,  que a gente tem que sair correndo daqui. Veste um casaco, que tá frio lá fora.

Não houve tempo para desnorteio. Levantei num pulo e a única coisa que fiz foi obedecer. Escolhi o casaco mais quente ~ nessas horas, recomenda-se estar preparada pra um frio polar ~ e enfiei correndo um tênis no pé.  Foram sete segundos, se muito. Abrimos a porta pro corredor. Nada. Somente um alarme ensurdecedor.

Olhei pra um lado, pro outro. Nada. Dei dois passos de volta pra casa, que eu que não vou sair assim. Bati o olho, vi no canto uma mochila. Enfiei correndo o meu computador. O outro. Nem pensei onde é que tava o carregador: Disso cuidamos depois. Mais seis segundos. Na saída, lembrei da maldita pasta - todo estrangeiro há de ter uma pasta com todos os documentos e mundo pode até pegar fogo, mas eu não vim até aqui para perder a minha identidade. Enfiei correndo a pasta na mochila entreaberta. Dois segundos a mais. Dois segundos a menos.

Saímos correndo de casa.

::

O que você levaria para o fim do mundo diz muito sobre a vida que você escolheu levar.

Esqueci cada um dos meus vestidos e toda essa maquiagem que eu teimo em continuar comprando.
Deixei pra trás todo o (pouco) dinheiro que eu tinha - inclusive o cartão do banco, que não teria sido nada mal lembrar.
Kiko se culpou por ter esquecido do cavaco, mas não pelas varas de pescar.

Dois computadores, todos os passaportes e o nosso amor. Ontem, isso foi tudo o que nos bastou.





PS: O suposto incêndio não foi nada além de uma boa história pra contar e dessa belíssima oportunidade de refletir sobre o que vamos levar daqui.