quinta-feira, 22 de setembro de 2016

É PRIMAVERA!

Essa semana serve para refletir.

Semana em que ouvi anunciado o fim da Filosofia nas Universidades e a volta às aulas de Moral e Cívica, semana em que Temer foi a ONU e países latino americanos saíram em protesto ao ouvir seu nome. Mesma em que meu estado de origem comemora o 20 de setembro e as raízes gaudérias afloram.


Dias de pensar, de maneira ampla, nos imigrantes, nas eleições da Alemanha, até então aberta aos países que pedem ajuda. Nos vizinhos que chegam aos barrancos e vendem esfirras e óculos nas esquinas. No meu mundo particular: duas amigas que partem para se lançar ao mar, ao desconhecido mundo dos encontros consigo e de um horizonte de possibilidades. Momento  em que se alcança ao caminhar rumo a utopia, diria Galeano em suas sábias palavras.


Mas hoje, dia da primavera, há de florescer uma rosa vermelha em meu jardim. Dia em que as flores brotam e se fazem as mais exibidas da natureza.


Hoje, minha avó floresce aos seus oitenta e vários anos de vida. Uma vida que eu diria, bem vivida. De plantar raízes, desbravar cidades, trabalhar menina, de virar mulher política num Brasil de calças.


Escrevo aqui para te dar os parabéns, pela história de anos de luta e amor. Por ter chegado aonde estás hoje. Mulher forte, de unhas coloridas, saia amarela e colares que transbordam. Penso no pouco tempo de vida do Brasil, com seus mais de 500 anos de civilização (?) e te vejo na história, tentando construir este país, com possibilidades mais igualitárias. Utópico? Que bom que você tentou e fez sua caminhada.


Penso nas crianças mudas e telepáticas, nas domésticas, nas minorias, no analfabetismo, penso nos imigrantes. Somos todos seres HUMANOS iguais e com os mesmos direitos de vida.


Penso na nossa história, parida na dizimação de índios, na vinda de colonos igualmente imigrantes que chegaram aqui para desbravar. Porque impomos barreiras e tratamos nossos irmãos como quase lixos jogados embaixo da ponte com tanto a oferecer e tantas histórias pra contar.


Pouco falamos ou estudamos sobre a verdade que nos constitui. Um povo que lê quase nada (40% não lê livros e 30% nunca comprou um) e com 13 milhões de analfabetos. Será isso reflexo de nossa educação, ou uma questão política? Será que o Golpe de Estado que vivemos este ano é reflexo do nosso passado? Não existe governo corrupto em uma nação ética, disse o historiador brasileiro Leandro Karnal. Passamos por pouco tempo de história democrática do Brasil e ainda engatinhamos com as leis falhas da constituição.


Que orgulho saber vó, da sua coragem e que, com sua luta e fé (nunca esqueçamos dela) cresceu e criou a família que queria prover.


No livro Raízes do Brasil (1936) Sergio Buarque de Holanda descreve o povo brasileiro como cordial, que age com o coração e com o sentimento. Um livro que busca mostrar a identidade brasileira com conceitos de patrimonialismo e burocracias dos  novos tempos. Acho que aceitamos fácil ou simplesmente nos deixamos levar para conseguir suportar. Uma vida num país tão belo e proporcionalmente injusto.


Queria eu tentar entender um pouco mais sobre esta origem, sobre a tua, sobre a história que nos constrói. Estamos no momento de desabrochar, ainda num crepúsculo nascer do sol, tempos de florescer e nos tornar mais belos. Mas é difícil nascer, diria a borboleta em seu jardim. Tenho esperança, e disso me admiro. Por ver uma luz e sentir que o desgosto é grande, mas só por isso nos movimentamos e algo bom pode acontecer.


Talvez o tempo passe e só daqui há 20 anos a gente entenda este momento histórico que vivemos. Enquanto a sabedoria, mesmo sem aulas de filosofia, se apresenta no cotidiano e nos mostra o que realmente importa na vida. Um viva para os encontros, para os que lutam, para o amor e para minha vó que nasce hoje em mais um ciclo em torno do sol.


Porque é primavera e as rosas hão de brotar.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Voltar quase sempre é partir para um outro lugar


A mala fechada no canto da sala. Respira, dá o último gole no vinho que sobrou de ontem. Sorri lembrando cada coisa que aconteceu. Meu Deus, esses meses voaram. Respira fundo e sente no ar o inconfundível cheiro de jasmim das Laranjeiras que, como sempre, satisfeita sorri.

Pensando aqui, foi curioso que eu tenha passado esse tempo reaprendendo a namorar esse bairro onde tão feliz eu fui. Eu, que já não moro mais aqui, pude viver de novo a leveza daquela Luana lá de trás: A Luana do chorinho, do pedaço de manga oferecido na feira, do encontro com o amigo dono do cachorro no café da esquina.

A Luana que precisou se divorciar de uma cidade pra perceber o quanto ela precisava viver com o Rio um namorico temporário, de portão de embarque, aquele amor de verão em que a gente um dá pro outro tudo o que temos de melhor. Como naquela que eu escrevia no canto da agenda da escola que dizia que, quando a gente ama mesmo, a gente precisa deixar a pessoa ir embora.

Cidade Maravilhosa, meu bem: Como nos fez bem a coragem de abrir a relação.

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A vitrola da minha cabeça toca Samba do Amor, na voz da Teresa. E nessa hora eu lembro da frase que minha amiga insiste em dizer: "Um Homem nunca entra duas vezes num mesmo Rio".

Que bonito isso da gente poder voltar pra Casa, essa palavra cuja busca permeou cada minuto desse doismiledezesseis. Eu vou pra poder voltar, vou com um gostinho de felicidade tão genuína por todo amor que eu vivi aqui. Fui acolhida pelos meus, pelas minhas, por corações que pulsam junto ao meu em milhas ou em quilômetros.

Obrigada pelos abraços generosos e por todo o [muito] amor envolvido nesses mais de sessenta dias que eu passei aqui.

E hoje eu me despeço sabendo que vou leve, com o gosto na boca de missão cumprida. Foi difícil vir. Foi facílimo estar. E vai ser muito bom voltar.

Até loguinho.



(ouçam)