quarta-feira, 1 de março de 2017

Tão longe, tão perto

Deixa eu te contar uma coisa, agora que passou todo o Alalaô.

Quando resolvemos esticar essa temporada fora do Brasil, a única coisa que pedimos ao Universo foi que nada de ruim acontecesse às pessoas que a gente ama enquanto a gente estivesse longe. Por mais difícil que seja ficar longe do pão de queijo, dos amigos e dos bloquinhos no Carnaval, se tem uma coisa que realmente atormenta o coração de quem mora longe de casa é a idéia de não estar por perto no caso de algo acontecer a alguém muito importante pra nós.

Eu tinha acabado de sair do Brasil quando aconteceu pela primeira vez. Perdi uma das minhas melhores amigas, minha Fada-Madrinha, a rainha da minha bateria e, com ela, o meu chão. Foi uma rasteira tão forte da vida que eu pensei que nunca mais ia conseguir voltar a sorrir.

Aos poucos, a gente começa a ensaiar um sorriso tímido ao lembrar que a amiga seria a primeira pessoa a querer que a gente fosse feliz de novo. Como aqueles primeiros raios de sol da Primavera, pouco a pouco vem vindo um sorriso tímido, acompanhado de uma saudade longa, melancólica, presente. Ainda mais nessa época de carnaval.

Tínhamos passado um ano em San Francisco quando Michel Temer as circunstâncias nos levaram a decidir passar 2 anos em Paris. Trabalhar na Europa, aprender Francês e aproveitar Paris com calma pareciam muito mais interessantes do que aturar a dupla Crivella-Temer. A LÓGICA nos trouxe pra cá. Mas... E o coração? 

A verdade é que gente nunca se acostuma a ficar longe. Por mais que a gente construa uma nova vida aqui fora, faça novos amigos e curta a descoberta dos novos cafés, até segunda ordem somos cariocas morando longe do Brasil por um tempo pré-determinado. Amava San Francisco e não tem como a gente não amar Paris, mas é o Rio que segue tatuado no braço; com suas dores, suas mazelas e sua beleza de arrancar o fôlego, como um beijo roubado no bloco. Ah, se você fosse sincera, Aurora.

A única coisa que conforta um pouco à distância é uma certa sensação de que está todo mundo bem no Brasil e a gente veio aqui porque era aqui que a gente tinha que estar. Cada um com suas escolhas, cada um no seu caminho, o nosso veio parar aqui. Tudo lindo, até que o medo lá do começo arrebenta a sua porta. 

E estar longe de casa quando alguém precisa de você é de fuder o cu do palhaço, cês vão me desculpando aí pela expressão. Principalmente quando a única coisa que você não pode (não pode?!) fazer é entrar num avião e voltar pra casa. Ainda mais quando a pessoa é parte fundamental de tudo aquilo que a gente é. Ainda mais no meio do carnaval.

(Aqui vale um comentário de que está "tudo bem" com a pessoa e ela não quer ser exposta. Foi a maior rasteira que já tomou na vida, mas ela vai usar o tropeço como trampolim e vai sair dessa voando como nunca se viu. Agradeçemos aí antecipadamente a preocupação).

Na sexta-feira, enquanto todo mundo estava no bloco, estava eu com o coração na boca a ponto de precisar ir chorar no banheiro com uma amiga (obrigada, viu?!). Foi aí que ela me contou que tinha sido criada só pela mãe e que se algo acontecesse ela não ia se perdoar jamais por ter deixado a família no Brasil e vindo parar aqui. Sozinhas, naquele banheiro frio do bar lotado em Paris, nós nos abraçamos e choramos juntas, cada uma com saudade de sua própria casa. 

E nunca mais se viu banheiro mais brasileiro na fria madrugada de Paris. 

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Como todo Carnaval tem seu fim, Março chegou e com ele o novo trabalho que é o suposto motivo pra eu ter vindo pra cá.

Acordei cedo e, meio sem saber o que fazer, resolvi começar o mês sentando pra meditar. 

Coloquei o fone de ouvido e dei play na única música que eu poderia ouvir numa hora dessas.

 



Eu 
Não vou mudar, não 
Eu vou ficar são 
Mesmo se for só 
Não vou ceder 
Deus 
Vai dar aval, sim
O mal vai ter fim
E no final, assim calado eu sei que vou ser coroado Rei de mim.



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