domingo, 28 de maio de 2017

Um pedaço de mim ficou na Africa

Faz mais de semana. 
A cada dia penso no sorriso roubado, nas crianças alegres, na batucada de um samba inventado. O tonel plástico é instrumento forte e a voz da pequena Cisse não para de me povoar.
O embalo da menina, agarrada às saias multicoloridas das mulheres, trabalhadoras de sol a sol. Aonde vão tão arrumadas?


Lavar, cozinhar, pendurar, amamentar, esfregar, catar, vestir, embelezar, esperar. Compras baratas. Quem sabe um bar para tomar café. Portas que servem, carnes às moscas. Um rabo para cozinhar.

Nem pense em pratos, talheres, mesa, chuveiro, luz.
Pense em família, amor, união, música, religião.

O olhar de esperança de cada um. 


O que a mulher branca de roupas estranhas veio fazer aqui? Onde está seu lenço a esconder seu colo e proteger seu pelo? Suas joias, tranças, presentes? Ensinar Ioga e meditar, ou virar para Meca para rezar? Quanto vale seu dote?

Falar wolof por mímica e traduzir cada gesto de forma direta.
As pernas cambaleantes na dança solta.
De onde vem?

Origens? A reza muçulmana toma conta.
Que relação temos com este povo?
SAO, pequena comunidade de Thiès, com aproximadamente 600 habitantes.


Pessoas simples, servis, sem trabalho a receber, muito serviço a fazer, umas poucas mangas a colher, uma galinha a assar, um galo a cantar e avisar que mais um sol irá levantar. Um dia, quente e árido, depois do outro.

A charrete nos leva a Noto, povoado maior, com vendas de chip para celular, tecidos coloridos, pão, algumas frutas, peixe. A cada dia sentir. Fome, sono, sol, areia, desconforto, cansaço. A cada minuto ver através da história. Não queira piscar, muito menos dormir. Um devaneio, ou algo que não poderia perder nem um instante.


Pouco tempo a impregnar com tanta beleza poeiril, preta e colorida. Ser humano, estar presente e viver o lado puro ou vazio do copo.

Como instante derradeiro, Ilha de Gorée: o navio que chega, turistas a fotografar tamanha dor, a singeleza que salta. Respira que não cabe. Faça o preço e leve três - colares, tapetes, pinturas, instrumentos.

A cada passo no chão de areia, o passado ainda povoa, baobás centenários, paredes riscadas, casas que guardam o tempo. No horizonte: o Novo Mundo.

Estima-se que quase 20 milhões de escravizados saíram de terras africanas. 4,8 milhões chegaram vivos ao Brasil. Muitos ficaram pelo caminho (300 mil?), em navios clandestinos, abarrotados em seus porões de um metro e meio. O direito de ir ao mar/banheiro, uma vez ao dia.

Lembre que mais da metade da população brasileira é negra. Somos filhos da Africa.
60 quilos. Peso mínimo para virar escravo, mudar de nome e começar uma nova vida, ou algo semelhante a isso.



Refletir sobre as origens e o quanto não olhamos para o outro lado do oceano a avistar pessoas tão puras e com tanto a ensinar.

De onde vem tanta riqueza? Honestidade, cultura, simplicidade, amizade. Tão pouco e tantos sorrisos. 


Espero poder lembrar, lembrar, lembrar. 

O que fica?


Povo forte, de poucas palavras. Somos iguais em nossas diferenças e plenitudes.

Acordar podendo tocar, trocar, aprender, colher os frutos e saborear até o bagaço.
Como faço com o pedaço de mim que ficou do lado de lá? 

Djeredef família Cisse, por me fazer encontrar por essas bandas.

Por Betânia Furtado