terça-feira, 1 de agosto de 2017

Tô aqui > Eu te amo




Outro dia ouvi uma frase que mudou minha vida: 'Tô aqui' é muito mais importante do que 'Eu te Amo'.

Eu estava em pé no metrô, hoje, e essa frase me bateu. Foi quando a porta da estação se abriu e onde eu estava entrou uma menina. 18, 19 anos, aquela leveza de quem acabou de se apaixonar de novo, um mundo de possibilidades pela frente, aquele olhar meio cansado de quem dormiu tarde na noite anterior. Ouvia música - talvez um banda de rock, talvez uma letra de amor. A gente nunca sabe muito bem o que essa juventude anda ouvindo por aí.

Essa menina já fui eu.

Também já fui eu na hora que aquele cara chegou. Mais velho do que ela - bem mais velho. Parou na frente da menina sorrindo e parou de caber dentro de si. Uma mulher feliz passa a ser patrimônio público. 

Era mais forte do que ele, que imediatamente começou a puxar conversa. A menina, visivelmente desconfortável, achou melhor fingir que não ouviu. Olhava pra um lado e pro outro, mexia rapidamente o pé, afeitava o fone no ouvido. Estava sendo abordada por um cara que tinha o dobro da sua idade em um metrô cheio de pessoas que não estavam nem aí.

Ele aumentou o tom. "Ei! Tô falando com você!". A menina, assustada, afastou o fone do ouvido e perguntou: Perdão?

É tanta coisa que separa as mulheres nesse mundo. É diferente o nosso tom de pele, provavelmente não falamos a mesma Língua e cada uma de nós acredita no seu próprio Deus. Mas se tem uma coisa que une as mulheres desse planeta é esse medo que nos faz responder a um homem estranho que invade nosso espaço com um "Perdão". Perdão por eu não querer responder você. Perdão por ter fingido que estava escutando música. Perdão por olhar em volta sem saber o que fazer. Perdão por querer que a próxima estação chegue logo.

Ser estuprado é o maior medo que um homem sente ao cometer um crime e ser levado para a prisão. Isso pra mim se chama "terça-feira, oito da manhã, num metrô lotado por aí". E, ainda assim, tem gente que se pergunta por que em 2017 o mundo ainda precisa de Feminismo. 

Precisa porque a cada uma hora e meia acontece um feminicídio no Brasil. Precisa porque semana passada eu entrei num ônibus e achei melhor ficar em pé do que sentar ao lado daquele cara esquisito me olhando sem parar. Precisa porque eu tenho sobrinhas que eu amo tanto que não quero que passem por isso. Precisa porque essa cena poderia ser no metrô do Rio, poderia ter sido em São Paulo, poderia ser em Nova York, poderia ser em Paris. Todas as mulheres que eu conheço já sofreram algum tipo de abuso.

Precisa porque quantas vezes eu fui aquela menina. Eu fui na hora que ela abaixou os olhos envergonhada por aquele cara que não parava de elogiar. Eu fui quando olhei ela tremer nervosa querendo que aquele pesadelo chegasse ao fim. Eu fui quando ela disse que a estação era a próxima e mudou o curso do dia pra que o curso do dia não acabasse com ela. Eu fui quando ela olhou subitamente em volta e os olhos desesperados dela se encontraram com os meus.

E foi aí que o meu olho disse: Tô aqui.





Tô aqui e sei o que você está sentindo. Tô aqui e a Humanidade deu errado. Tô aqui e a gente vive um sete-a-um por dia. Tô aqui porque não sei onde está a maldita Aldeia. Tô aqui porque sei que isso vai te acontecer de novo. Tô aqui esperando que apesar disso seu dia valha a pena. Tô aqui até ter certeza de que você está sozinha do lado de fora desse metrô. Tô aqui e enquanto eu puder estar aqui, não duvide, é aqui que eu vou estar.

Tô aqui porque, em 2017, ainda tem gente que se pergunta por que o mundo precisa de Feminismo.